- Estudo publicado na Nature alerta que, se as emissões persistirem, a Amazônia pode entrar em regime hipertropical até o fim do século, com secas de até 150 dias por ano e mortalidade de árvores de até 55%.
- As secas seriam quentes e prolongadas, repetidas entre agosto e outubro, fortalecendo o risco de dano à biomassa florestal.
- Pesquisadores acompanharam 87 árvores durante as secas de 2015 e 2023, medindo água, umidade do solo e temperatura na copa para entender a mortalidade.
- Durante secas, a fotossíntese diminui e a transpiração aumenta; se a umidade do solo cai a menos de um terço, árvores não se fecham completamente e podem morrer por embolismos na seiva.
- O estudo destaca a relação com El Niño/La Niña, aponta que mudanças climáticas humanas tornam as secas severas mais frequentes e prolongadas, e propõe ampliar o monitoramento para Rondônia, Pará e Amapá.
O estudo publicado na revista Nature alerta que, se as emissões de gases de efeito estufa continuarem no ritmo atual, a Amazônia pode entrar em um regime hipertropical até o fim do século. Secas intensas e prolongadas, com até 150 dias sem chuva por ano, aumentariam, elevando a mortalidade de árvores em até 55%. A pesquisa é resultado de uma década de colaboração entre o Lawrence Berkeley National Laboratory, na Califórnia, e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores monitoraram 87 árvores nas duas últimas grandes secas brasileiras, em 2015 e 2023, medindo água, umidade do solo e temperatura na copa. Durante as secas, a fotossíntese cai, a transpiração aumenta e estômatos se fecham para evitar perda de água. Em solos muito secos, árvores mais resistentes também podem morrer por embolismos na seiva.
Segundo Niro Higuchi, do INPA, o foco é entender a capacidade de troca entre a floresta e a atmosfera. O estudo aponta que o regime hipertropical fragiliza principalmente árvores altas, de crescimento rápido e madeira menos densa. Tempestades periódicas também ampliam o dano, derrubando grandes áreas em um único evento.
El Niño, La Niña e impactos climáticos
Os autores associam as secas severas a eventos do El Niño, ciclo climático em que as águas do Pacífico se aquecem. Esses ciclos, que variam de dois a sete anos, costumam aumentar a seca na Amazônia e intensificar chuvas em áreas do sul do Brasil durante o La Niña. Nos últimos anos, mudanças climáticas induzidas pela atividade humana têm alongado a duração e a intensidade desses padrões.
Entre 2023 e 2024, o El Niño foi monitorado dia a dia pela primeira vez com sensores que registraram impactos diretos na floresta. Os especialistas alertam que, se a humanidade manter o ritmo atual de emissões, os picos de seca devem se tornar mais frequentes e prolongados, elevando o risco de queda de árvores e de danos por tempestades.
Perspectivas de monitoramento e alcance regional
A parceria entre o INPA e o Lawrence Berkeley busca melhorar previsões climáticas globais, especialmente ao focalizar as florestas tropicais. A equipe planeja expandir o monitoramento para Rondônia, Pará e Amapá. As mudanças descritas não são exclusivas da Amazônia; outras florestas tropicais, como as da África e do Sudeste Asiático, podem apresentar transições semelhantes.
Os cientistas destacam que a compreensão do comércio de água entre a floresta e a atmosfera é fundamental para prever o clima global. A pesquisa reforça a necessidade de reduzir emissões para evitar que a Amazônia evolua para um regime de seca mais intenso e duradouro.
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