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O que os animais podem nos ensinar a vencer a tirania

Estudos de ecologia mostram que despotismo surge em sociedades animais; muriquis mantêm estruturas igualitárias que evitam tirania

A close-up of a wild male Gelada baboon in the Simian mountains, Ethiopia (Credit: Alamy)
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  • A matéria analisa como certas sociedades animais são dominadas por despos (despotic rulers) e como algumas comunidades evitam esse padrão, com lições para a humanidade.
  • O relato começa com Bill, um camundongo que, nos anos vinte, mostrou comportamento despótico em relação a outros camundongos, influenciando estudos sobre hierarquias de dominância.
  • Em várias espécies, como babuínos, mangustos-da-banda e tatus-naked mole rats, reina uma hierarquia de dominância em que poucos indivíduos controlam recursos e acasalam.
  • Em banded mongooses, fêmeas dominantes chegam a guerrear com outras colônias para acasalar, o que pode gerar descendência mais diversa, ainda que envolva riscos.
  • Já os muriquis do norte, primatas do Brasil, são descritos como pacíficos e egalitários, compartilhando recursos com menos agressão e mostrando que cooperação pode favorecer a sobrevivência.

No início dos anos 1950, em um antigo campo de treino de aviões no condado de Suffolk, Reino Unido, Peter Crowcroft observou Bill, um camundongo que emergiu como líder autocrático. O estudo visava entender o comportamento dos ratos que depredavam reservas de grãos britânicas.

Bill confrontou outro camundongo, Charlie, em um encontro rápido e feroz, estabelecendo-se como o despo­ta da colônia. Crowcroft registrou, em seu livro, o comportamento dominante de Bill ao longo de várias páginas.

A partir de then, o despotismo aparece como traço comum em várias sociedades animais, não apenas entre camundongos. Babuínos, mangustos-ruivos e ratos-naked mole rat também exibem hierarquias de domínio rigidamente estruturadas.

Norte de muriquí, macaco do Brasil, é exemplo de sociedade pacífica. Nesta espécie, o grupo mantém estrutura equitável, com pouca agressão e divisão de recursos de forma relativamente justa, sugerindo que ambiente e genética influenciam.

Entre as banded mongooses, fêmeas dominantes lideram conflitos com grupos rivais para ampliar a reprodução. Quando a líder vence, os filhotes resultantes apresentam maior diversidade genética e maior chance de sobrevivência, ainda que haja riscos.

Em antas de terra, estudos indicam que a escassez de recursos pode favorecer despotismo, pois poucos indivíduos monopolizam alimentos e abrigo, moldando a dinâmica social e a cooperação entre membros.

Entre as formigas Protomagnathus americanus, algumas espécies escravizam larvas de rivais. Em resposta, as formigas escravizadas podem se rebelar e eliminar os opressores, mostrando que opressão nem sempre perdura.

Pesquisadores destacam que a mobilidade ambiental funciona como freio ao surgimento de líderes autoritários. Locais com menos barreiras tendem a evitar concentrações de poder, segundo as evidências citadas.

Para entender o humano, o grupo de cientistas aponta que cooperação e comportamento igualitário costumam favorecer sociedades estáveis. Estudos mostram correlações entre poder, riqueza e reprodução entre despotos masculinos ao longo da história.

A pesquisadora Elise Huchard observa que, em alguns babuínos, a dominância de indivíduos agressivos pode recair sobre o grupo, influenciando decisões de forrageamento e acesso a fêmeas. A líder fêmea também pode impor seu estatuto entre outras.

Entre muriquis, a ausência de conflitos favorece a coesão. A igualdade de tamanho entre machos e fêmeas dificulta dominações físicas, sugerindo que a despotismo não traz vantagens para este grupo.

O biólogo Marcy Ekanayake-Weber ressalta que a agricultura humana moldou hierarquias há milênios, reforçando desigualdades. Ainda assim, a cooperação permanece como caminho para o progresso social, dizem as pesquisas citadas.

O estudo de Vars e colaboradores mostrou que grupos de formigas podem escolher entre ninhos, priorizando a coesão do conjunto mesmo diante de escolhas menos favoráveis. A lição é sobre manter a cooperação para vencer desafios coletivos.

Pesquisadores asseguram que observar sociedades animais revela padrões de comportamento humano, sem juízo moral. O ressurgimento de descrições de dominação em espécies distintas aponta para mecanismos evolutivos e ambientais.

Em síntese, despotismo existe em várias espécies, com consequências variadas para indivíduos. A cooperação e a mobilidade social aparecem como antídotos recorrentes, segundo as evidências discutidas.

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