- Especialistas dizem que rótulos de plástico como “circulares” e de baixo carbono são enganosos, pois grande parte do material continua derivado de petróleo e pouco é realmente reciclado.
- Grandes marcas europeias, como Heinz Beanz e Philadelphia, utilizam materiais da Sabic, braço petroquímico da Saudi Aramco, uma das maiores emissoras de gases do planeta.
- O setor usa duas artimanhas contábeis controversas: “massa-balance” e “emissões evitadas”, que atribuem reciclado a lotes específicos ou subtraem o carbono que teria sido liberado com incineração.
- O uso de pirólise (reciclagem química) é promovido para apresentar uma imagem sustentável, mas o óleo de pirólise representa uma fração pequena do insumo total e depende de grande quantidade de nafta virgem.
- A União Europeia se prepara para tornar legais essas práticas em 2026, com regulações semelhantes no Reino Unido entrando em vigor em 2027, enquanto grupos e especialistas alertam sobre greenwashing e impactos reais no clima.
A publicidade de embalagens plásticas em várias marcas europeias tem gerado questionamentos sobre a veracidade de afirmações de sustentabilidade. Empresas usam materiais rotulados como circulares e de baixo impacto climático, mas grande parte da composição vem de petróleo. A prática envolve a cadeia de suprimentos da Sabic, unidade petroquímica da Aramco, sediada na Arábia Saudita, maior emissor corporativo de gases de efeito estufa até 2023.
A produção envolve reciclagem química, ou pyrolysis, que transforma resíduos plásticos em insumos reciclados. Contudo, especialistas apontam que esse insumo pode representar no máximo 5% do feedstock, sendo necessário misturá-lo com naphtha virgem para manter as usinas de craqueamento em funcionamento. O restante ainda é derivado de fósseis.
A rotulagem de “reciclado” costuma depender de contabilidade de balanço de massa, prática contestada por analistas. Além disso, há o recurso a “emissões evitadas” ao comparar com a incineração, o que pode reduzir artificialmente as pegadas de carbono associadas. Organizações independentes alertam para o risco de greenwashing.
Quem está envolvido inclui Sabic, parceira de marcas como Kraft Heinz Beanz e Mondelez Philadelphia, além de fornecedores de óleo de pirólise. A Sabic divulgou avaliações de ciclo de vida (LCA), porém críticas surgem sobre a independência dos revisores e sobre a real participação de insumos reciclados no total.
Os reguladores europeus preveem legalizar esse tipo de contabilidade a partir de 2026, com leis similares no Reino Unido previstas para 2027. O objetivo é padronizar rotulagem, mas especialistas dizem que, sem mudanças, o conteúdo reciclado real dificilmente acompanhe as metas anunciadas.
Entre as consequências, há preocupação com o impacto ambiental de todo o processo, que consome energia e gera emissões adicionais. Pesquisadores ressaltam que a percepção de benefícios depende de indicadores reais e não apenas de créditos contábeis ou de números faturados pelas empresas.
Especialistas consultados destacam a necessidade de transparência e de metodologias independentes para confirmar o peso real de materiais reciclados nas embalagens. Temas como confiabilidade de LCAs e a relação entre consumo responsável e práticas de reciclagem continuam sob escrutínio no setor.
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