- Estudo com 14 comunidades ribeirinhas do Juruá, no Amazonas, acompanhou a co-gerência de pirarucu em 96 lagoas ao longo do rio.
- Guardas comunitários impedem caças, confiscam equipamentos e comunicam atividades ilegais, protegendo pirarucu e ecossistemas de áreas alagadas e terras altas.
- Mesmo sem pagamento, os patrulheiros arcariam com custos de alimentação e suprimentos; vigilância representa cerca de 32% dos custos totais e reduz a renda da comunidade em about 21%.
- Junto com as lagoas, a proteção amplia a área de inundação protegida para quase 86 vezes o tamanho das lagoas, favorecendo conectividade ecossistêmica entre zonas alagadas e florestas de terra firme.
- Mulheres ganham espaço na gestão e liderança; jovens também participam, fortalecendo autonomia econômica e a legitimidade do manejo comunitário.
A conservação fomenta a proteção de pirarucu na Amazônia brasileira, mas exige custo humano e financeiro das próprias comunidades. Um estudo publicado na Nature Sustainability mostra que ações de coGestão de pescarias em 14 comunidades ribeirinhas monitorando 96 lagoas de alagamento na região do baixo Juruá, no estado do Amazonas, reduzem a entrada de caçadores ilegais e fortalecem ecossistemas conectados.
Segundo os pesquisadores, o envolvimento local beneficia não apenas o pirarucu, mas também a conectividade entre ecossistemas de áreas alagadas e zonas altas. Ao restringir o acesso de terceiros, apreender equipamentos de pesca ilegal e reportar atividades, as comunidades protegem recursos naturais e seus meios de subsistência. No entanto, os guardas trabalham sem remuneração, arcando com custos de alimentação, suprimentos e deslocamento.
Compatibilidade entre ciência e saber tradicional
A pesquisa analisa a maior iniciativa de conservação pesqueira baseada em comunidades na Bacia do Amazonas. A atuação contínua permitiu observar que a proteção de lagoas eleva a área de alagado protegida para além das lagoas, com impactos indiretos em florestas altas e áreas de transição. A soma dessas proteções sinaliza ganho de conectividade ecológica entre ambientes aquáticos e terrestres.
Coautora Ana Carla Rodrigues destaca que a gestão comunitária amplia a conectividade ecológica. “Evidências iniciais indicam efeitos positivos que se estendem a ecossistemas terrestres”, afirma por e-mail. O estudo registrou que a proteção de áreas associadas aos lagos aumenta significativamente a área protegida em toda a paisagem ribeirinha.
Custos e possíveis fontes de financiamento
As famílias assumem o peso financeiro da conservação: vigilância, alimentação e suprimentos representam cerca de 32% dos custos, e a renda das comunidades cai aproximadamente 21% devido à aproximação de patrulhas. O custo médio de proteção é estimado em 0,95 dólar por hectare por ano; pagar dois guardas eleva o custo para 5,30 a 5,40 dólares por hectare, conforme cenários de remuneração.
Pesquisadores sugerem que pagamentos por serviços ambientais (PES) poderiam compensar as comunidades. Em 2025, durante a COP30 em Belém, houve debate sobre um piloto de PES para testar a distribuição de recursos antes de um programa nacional. As propostas enfatizam transparência, responsabilidade e justiça social.
Perspectivas e impacto social
A gestão compartilha responsabilidades entre famílias e, cada vez mais, entre gêneros. Embora o estudo não foque em gênero, observa-se maior visibilidade das mulheres na vigilância, com participação em contagens e decisões comunitárias. Jovens também se envolvem, contribuindo para reduzir a migração para centros urbanos.
João Campos-Silva, pesquisador e um dos autores, ressalta que combinar ciência convencional com conhecimento tradicional é essencial para o futuro da região. A ideia é sustentar a conservação por meio de mecanismos que remunerem as pessoas diretamente engajadas na proteção dos recursos, mantendo a dignidade no campo.
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