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Plantas rasteiras do Cerrado passam dos 100 anos, aponta estudo

Pesquisa revela que plantas rasteiras do Cerrado podem superar cem anos, abrindo caminho para entender a história climática e orientar políticas de conservação dos campos naturais

Fotografia da planta Eugenia livida.
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  • Estudos do Biota Campos mostram que plantas rasteiras do Cerrado podem ter mais de cem anos, com uma raiz encontrada de 136 anos.
  • A idade foi estimada usando herbocronologia, analisando anéis de crescimento na raiz e, quando necessário, com corantes sob microscópio para distinguir anéis verdadeiros de falsos.
  • Em mais de duzentas plantas de cento e sete espécies, a maioria não passava de dez anos, mas no Cerrado há exemplares com mais de um século.
  • Os pesquisadores destacam que os anéis de raiz capturam a história climática do ecossistema, contribuindo para entender o passado de campos naturais que ocupam cerca de vinte por cento da superfície terrestre.
  • O Biota Campos vai realizar, em setembro, um workshop para discutir a legislação e propor políticas de conservação, além de indicar áreas que deveriam virar unidades de conservação; o estudo aponta que há o dobro de campos naturais em São Paulo do que o mapeamento oficial indicava.

O estudo mostra que plantas rasteiras do Cerrado podem superar 100 anos de idade. Pesquisadores utilizam a herbocronologia para estimar a idade de plantas pequenas, revejando a história natural dos campos naturais brasileiros.

No interior de São Paulo, pesquisadores do Biota Campos analisaram órgãos subterrâneos de plantas rasteiras em Cerrado e Mata Atlântica. O objetivo é entender a idade dessas comunidades e seu valor ecológico.

Os resultados, publicados em dois periódicos, indicam que a maioria das plantas coletadas tem menos de 10 anos, especialmente em campos de altitude da Mata Atlântica. No Cerrado, porém, raízes chegam a superar um século, com a planta mais velha estimada em 136 anos.

Giselda Durigan, engenheira florestal e líder do Biota Campos, comenta que a idade não se revela pelo tamanho das folhas, mas pela raiz viva sob o solo. Ela participou da coleta de amostras e reforça a importância da raiz para compreender o tempo de vida.

A técnica de herbocronologia, ramo da dendrocronologia, mede a idade pela análise de anéis de crescimento. Em plantas pequenas, esse processo ocorre subterrâneo, na raiz, onde se formam estruturas de madeira ao longo do tempo.

Segundo a bióloga Cláudia Fontana, a produção de tecido secundário nas raízes permite detectar anéis de crescimento, mesmo sem cortes no caule. Em alguns casos, os pesquisadores recorrem a técnicas químicas para tornar os anéis mais visíveis.

Em regiões onde as partes aéreas sofrem fogo, a raiz subterrânea resiste e garante rebrotamento. Essa dinâmica explica a possibilidade de plantas com séculos de existência, apesar da aparente ausência de árvores em muitos campos.

Estudos do Flora, com uso de corantes, ajudaram a distinguir anéis verdadeiros de anéis falsos. A diferenciação facilita estimativas de idade em plantas com caules muito finos para técnicas tradicionais.

A pesquisa aponta que, em média, uma raiz de apenas 5 cm pode guardar mais de 50 anos de história. Cada anel de crescimento registra mudanças climáticas e a história de vida da planta estudada.

A dendrocronologia também permite inferir condições climáticas e estresse, ao comparar padrões entre várias plantas. Assim, as raízes revelam o passado climático de ecossistemas de campos naturais.

Durigan afirma que os campos naturais costumam abrigar água de nascentes de várias bacias hidrográficas do país. A perda dessas áreas pode comprometer o abastecimento e os serviços ecossistêmicos associados.

Conservação é o principal desafio: a expansão urbana e a conversão de campos para soja, milho ou plantios não nativos ameaçam esses biomas. Em São Paulo, mapeamentos indicam desvios entre áreas reais de campo e registros oficiais.

A pesquisadora ressalta que a legislação atual tende a proteger apenas áreas com árvores, deixando os campos abertos mais vulneráveis. Ela defende políticas públicas específicas para preservação dos campos naturais.

Em setembro, o Biota Campos promoverá um workshop na Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente para discutir a legislação e propor medidas de conservação. O grupo pretende indicar áreas de campo natural que devem virar unidades de conservação.

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