- Entre 2020 e 2024, foram congelados quase 545 mil embriões no Brasil, com alta de 47,6%, e em 2024 foram congelados 151,6 mil óvulos, dos quais 57,1% de mulheres com 35 anos ou mais.
- A idade avançada continua determinante para a probabilidade de concepção, riscos gestacionais e desigualdades sociais, com a probabilidade de gravidez caindo a partir dos 35 anos e mais ainda aos 40.
- Homens também são afetados: há evidências de maior tempo para a gestação e potenciais impactos na saúde do bebê conforme a idade, além de aumento de mutações genéticas com o envelhecimento paterno.
- Técnicas de reprodução assistida não garantem filhos e seu benefício depende da idade no momento do congelamento e do número de óvulos; há ressalvas sobre uso inadequado de marcadores de reserva ovariana e desigualdade de acesso.
- A fecundidade no Brasil está em queda; o país atingiu, em 2022, a menor Taxa de Fecundidade Total já registrada, e a expansão das técnicas de reprodução assistida tende a ter impacto demográfico limitado frente aos fatores sociais e econômicos que moldam escolhas reprodutivas.
Nos últimos anos, cresce a busca por preservação da fertilidade e reprodução assistida. Entre 2020 e 2024, o Brasil congelou quase 545 mil embriões, registro que mostra alta demanda nesse período conforme o SisEmbrio, da Anvisa.
Em 2024 foram congelados 151,6 mil óvulos, dos quais 57,1% pertenciam a pessoas com 35 anos ou mais. O movimento acompanha o adiamento da maternidade e da paternidade, influenciado pela realidade econômica e pelo mercado de trabalho.
Desafios e desigualdades
O crescimento do setor não é uniforme. O mercado global de serviços de fertilidade atingiu US$ 42,2 bilhões em 2023, com expectativa de superar US$ 70 bilhões no início da próxima década. Contudo, o acesso permanece desigual no Brasil.
Especialistas destacam que nem todos se beneficiam das opções disponíveis. A médica Ana Paula Avritscher Beck ressalta que a fertilidade tardia é uma escolha viável apenas para alguns grupos, diante de limitações financeiras e de acesso.
Entre as restrições, estão a falta de cobertura pública ou por planos de saúde e a concentração de centros em estados como São Paulo. Em 2024, o SisEmbrio informou 196 centros de reprodução humana assistida, com grande parte no Sudeste.
Fatores biológicos e riscos de gestação
A probabilidade de conceber em um ciclo cai com a idade. Enquanto casais saudáveis na faixa dos 20–30 anos chegam a 25–30%, aos 40 anos o índice fica abaixo de 10%. Além da idade, condições como endometriose e obesidade influenciam a fertilidade.
Estudos indicam impactos tanto na fertilidade feminina quanto na masculina. Entre os homens, a idade avançada pode reduzir parâmetros seminais e aumentar o risco de mutações genéticas em espermatozoides, com efeitos na concepção e na saúde do bebê.
Na gestação, o envelhecimento reprodutivo se associa a maiores riscos de alterações cromossômicas, abortos, parto prematuro e diabetes gestacional. Avanços em pesquisas ajudam a explicar esses mecanismos, mas não eliminam os riscos.
Perspectivas e limites das tecnologias
Apesar do crescimento no congelamento de óvulos e na FIV, não há garantias de filhos futuros. A eficácia depende da idade no congelamento e do número de óvulos armazenados, fatores frequentemente subestimados.
Diretrizes de sociedades médicas ressaltam a necessidade de indicação clínica adequada e aconselhamento informado. O objetivo é evitar expectativas irreais sobre tecnologias de reprodução assistida.
A desigualdade de acesso, associada à queda da fecundidade no Brasil, completa o cenário. O Censo de 2022 aponta 1,55 filho por mulher, a menor taxa já registrada, mantendo a discussão sobre políticas públicas e direitos reprodutivos.
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