- Pesquisa com piraíba no rio Araguaia revela migrações de centenas a milhares de quilômetros para desova, acompanhadas por telemetry acústica em quase 100 peixes.
- A espécie, Brachyplatystoma filamentosum, pode alcançar até 200 kg; estudo liderado por Lisiane Hahn da Universidade Federal de Mato Grosso.
- As movimentações indicam que migrações de grandes peixes de água doce são abrangentes e pouco protegidas, conectando áreas de headwaters, planícies de inundação e nurtery costeiros.
- Nova avaliação global da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) aponta 325 espécies de peixes migratórios de água doce em declínio desde 1970; apenas 23 estão listadas pela CMS, sendo a maioria esturjões.
- Urgência de maior cooperação internacional, especialmente na Ásia, com ações para restaurar rotas de migração e reduzir impactos de barragens e perda de habitat; planos de ação já foram apresentados em algumas regiões.
A pesquisadora Lisiane Hahn e a equipe do Projeto Peixara implantaram transmissores acústicos em quase 100 piraíbas, o maior bagre da América do Sul, no rio Araguaia, no Brasil. O objetivo é mapear deslocamentos para entender migrações longas e suas implicações para a conservação.
Dados obtidos com a rede de receptores mostram que a piraíba, que pode chegar a 200 kg, viaja centenas de quilômetros ao desova. A evidência é considerada a mais clara até hoje sobre movimentos migratórios extensos dessa espécie.
Os resultados destacam uma dimensão pouco vista das migrações de grandes peixes na América do Sul e globalmente. Peixes de água doce cruzam fronteiras via bacias conectadas, alimentando pescas e economias regionais.
Novo retrato global para peixes de água doce migratórios
Um relatório apresentado na COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) aponta 325 espécies de peixes migratórios de água doce em declínio, com queda estimada de 81% desde 1970. A maioria está na Ásia, especialmente no rio Mekong.
Segundo os especialistas, estruturas de gestão hidrelétrica, pesca excessiva e perda de habitat quebram rotas migratórias cruciais. A falta de cooperação internacional piora o quadro em regiões-chave.
A CMS classifica espécies em seus apêndices para proteção transfronteiriça. Hoje, apenas 23 espécies de peixes migratórios de água doce estão cadastradas, com a maioria entre os esturícios.
O estudo sobressai a necessidade de ampliar a participação de países, especialmente no Sudeste Asiático, no CMS. A ausência de adesão dificulta ações coordenadas de conservação.
Situação específica de bacias e exemplos regionais
Na Amazônia, na bacia do Araguaia e em outras regiões, as espécies dependem de conectividade entre rios, várzeas e áreas úmidas para cumprir seus ciclos biológicos. Remoção de barragens tem ajudado algumas rotas em parte do mundo, mas ainda há muito a fazer.
Observa-se avanços pontuais, como planos de ação multiespécies para peixes-gato migratórios na região amazônica. Mesmo com progressos, o Mekong, lar de 80 das 325 espécies identificadas, carece de gestão integrada.
Especialistas ressaltam que a gestão de rios continua fragmentada. A conectividade entre áreas de desova, áreas de alimentação e estuários é decisiva para a sobrevivência de várias espécies.
Perspectivas de continuidade da pesquisa
Hahn expande a área de estudo para cobrir um trecho maior do Araguaia, buscando compreender a extensão das migrações. Além da piraíba, já foram monitoradas outras espécies sul-americanas, como o jaú e o pirapitinga.
Em Peru, relatos de uma pirapitinga marcada indicando deslocamento superior a 800 quilômetros fortalecem a percepção de padrões de migração longas. A equipe continua a mapear trajetos e impactos ecológicos.
As informações reforçam a necessidade de ações internacionais para proteger corredores fluviais. A coordenação entre países pode facilitar estandes de proteção e manejo compartilhado dos recursos hídricos.
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