- Estudo aponta subnotificação da febre do Oropouche, com até duzentos casos reais para cada episódio registrado.
- Entre 1960 e 2025, foram infectadas nove milhões e quatrocentos mil pessoas na América Latina e no Caribe, sendo ao menos cinco milhões e quinhentos mil no Brasil.
- A transmissão ocorre pela picada do mosquito Culicoides paraensis; Manaus funciona como polo de dispersão na região amazônica.
- Desde 1955, foram identificados trinta e dois surtos na região; apenas no Brasil ocorreram dezenove surtos.
- Não há vacinas nem antivirais licenciados; estudos investigam moléculas a partir de alcatrão e a imunidade pode ser de longa duração, mas novas ocorrências devem continuar onde houver vetor.
O estudo coordenado por pesquisadores de universidades norte-americanas e brasileiras indica que a febre do Oropouche está subestimada nos dados oficiais. Entre 1960 e 2025, a doença já infectou 9,4 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe, com pelo menos 5,5 milhões no Brasil. A incidência real pode chegar a 200 casos não notificados para cada episódio registrado.
O trabalho reúne dados da University of Kentucky, da USP, da Unicamp e da Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam). O objetivo é mapear a circulação do vírus transmitido pelo mosquito Culicoides paraensis, conhecido na região Norte como maruim ou mosquito-pólvora.
O Ministério da Saúde tem observado vantagem de vigilância restrita na Amazônia, o que dificulta estimar a magnitude real do surto. Segundo o estudo, grande parte da população permanece sem contato com a doença, o que pode facilitar a expansão para outras regiões, inclusive capitais.
Manaus aparece como polo de dispersão da doença na região amazônica, com população em torno de 2 milhões e forte conectividade intracontinental. A capital pode atuar como ponte para estados como Espírito Santo e Rio de Janeiro, que registraram impactos relevantes em 2024.
A pesquisa analisou sorologias de amostras coletadas em três momentos distintos: novembro de 2023, junho de 2024 e novembro de 2024. O alcance de Manaus foi estimado em cerca de 12,5%, chegando próximo de 15% no estado.
Surtos históricos são revisados, totalizando 32 ocorrências desde a identificação da febre no Brasil, no Peru, na Guiana Francesa e no Panamá. No Brasil, 19 surtos foram identificados até o momento.
Especialistas destacam a possibilidade de ampliar técnicas de vigilância, incluindo triagem de síndromes febris com análises genéticas de pacientes. A disseminação ocorre tanto em vias silvestres quanto em ciclos urbanos, cada vez mais comuns em capitais brasileiras.
Manaus, como principal hub regional, facilita a dispersão da doença para outras áreas. A cidade serve de referência para entender a dinâmica entre áreas urbanas e zonas de mata, especialmente na Amazônia, onde a maioria dos casos permanece subnotificada.
O estudo ainda aponta que a diferença entre casos confirmados e infecções reais pode ser explicada pela dificuldade de acesso a serviços de saúde na bacia amazônica e pela alta proporção de casos assintomáticos ou leves, possivelmente a maioria das infecções.
Não há vacinas licenciadas nem antivirais específicos para a febre do Oropouche. Pesquisas em curso avaliam o potencial de acridonas como tratamento, conforme estudo apresentado nesta terça-feira, com foco em moléculas derivadas de alcatrão. A imunidade de longa duração pode existir, segundo os pesquisadores, com anticorpos já disponíveis há décadas.
Outro estudo divulgado nesta data identifica a predominância de transmissão em áreas rurais e florestais, sugerindo que estratégias de controle vetorial focadas em mosquitos urbanos não são suficientes para conter a doença. Vigilância epidêmica em zonas de contato com mata degradada é apontada como necessária.
Ao identificar quem já foi infectado, o grupo aponta que é possível prever melhor quais populações permanecem em risco para surtos futuros, fortalecendo a atuação de autoridades de saúde. O trabalho ressalta a necessidade de monitoramento contínuo para reduzir subnotificações e ampliar medidas preventivas.
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