- A comunidade de chimpanzés Ngogo, no Kibale National Park, Uganda, se dividiu em dois grupos rivais, Central e Western, após décadas convivendo juntos.
- Entre 2018 e 2024, o grupo ocidental realizou 24 ataques contra o grupo central, matando pelo menos sete adultos e 17 lactentes.
- O episódio é descrito como uma “guerra civil” rara entre chimpanzés, possivelmente ocorrendo apenas a cada cinco séculos, segundo estudo publicado na revista Science.
- Pesquisadores analisaram quase três décadas de dados e afirmam que houve morte coordenada de antigos aliados, com taxas de violência muito acima da média da espécie.
- Embora as causas exatas ainda sejam desconhecidas, o estudo aponta hipóteses ligadas a dinâmicas relacionais em redes sociais e a fatores ecológicos; o Ngogo fica sob proteção da Uganda Wildlife Authority.
A comunidade de chimpanzés do Ngogo, no Kibale National Park, em Uganda, passou por uma cisão que gerou dois grupos rivais, Central e Western, e resultou em ataques letais entre ex aliados. O estudo, publicado na revista Science, registra o episódio como uma “guerra civil” rara entre chimpanzés.
Ao longo de 2018, até 2024, o grupo Western liderou 24 ataques contra o grupo Central, causando morte de pelo menos sete adultos e 17 menores. O pesquisador Aaron A. Sandel, da Universidade do Texas, aponta que o conflito ainda se desenvolve e pode ter efeitos duradouros na população.
Antes da cisão, o Ngogo reunia entre 150 e 200 indivíduos, um dos maiores grupos já observados na natureza. Após a ruptura, as duas frentes ocuparam áreas distintas da floresta, tornando-se quase territórios separados.
Origens e dinâmica social
Entre 2015 e 2017, surgiram clusters sociais distintos, com menos interações entre eles e mais dentro de cada grupo. A reprodução entre membros de grupos diferentes cessou em 2015 e não houve reaproximação desde 2018, quando a fissão se consolidou.
Patrulhas territoriais começaram em 2016, com maior frequência nos anos seguintes, precedendo ataques fatais ao Central. Os pesquisadores destacam que chimpanzés que conviviam há anos passaram a ser alvos com base na nova filiação grupal.
Possíveis causas e implicações
Os autores propõem a “hipótese da dinâmica relacional”, sugerindo que mudanças nas relações dentro de uma rede social podem remodelar identidades de grupo e levar à violência coletiva. Ecologia, idade dos indivíduos e padrões de parentesco também podem influenciar as alianças e o conflito.
O estudo reforça a importância de dados de longo prazo para entender eventos raros em sociedades humanas e não humanas. O Ngogo foi protegido pela Uganda Wildlife Authority, o que favorece a continuidade de observações sem interferência humana frequente.
A pesquisa ressalta ainda que a conservação de chimpanzés é sensível a perdas de indivíduos, sobretudo diante de lutas intensas e de ameaças como doenças. Medidas de biossegurança e quarentena para visitantes passaram a ser adotadas para reduzir riscos de transmissão.
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