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Vírus gigantes: o que são e por que intrigam cientistas

Vírus gigantes ampliam o conceito de vida, com genomas robustos e traços de tradução que desafiam paradigmas, incluindo vírus dentro de vírus

Colagem feita com imagens microscópicas de diversos tipos de vírus.
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  • Vírus gigantes são partículas muito maiores que vírus comuns, com genomas extensos e estruturas complexas que desafiam a ideia tradicional de o que é vida; descobrem-se como membros do filo Nucleocytoviricota, principalmente parasitas de amebas.
  • A história começou com a descoberta de um microrganismo suspeito em 1992, em Bradford, que só em 2003 foi identificado como mimivirus, um vírus gigantesco que superava o tamanho típico de vírus.
  • Exemplos famosos incluem o Mimivirus, Pandoravirus e Tupanvirus, sendo este último brasileiro, com genomas grandes e genes inéditos; alguns vírus podem ter mais de dois mil genes.
  • No Brasil, pesquisadores da UFMG já identificaram mais de trezentos vírus gigantes, entre eles Sambavirus e Naiavirus, com avanços significativos em Belo Horizonte e no Pantanal.
  • Questões abertas incluem por que esses vírus carregam genes de funções como tradução proteica e energia, e se podem representar um quarto domínio da vida; também existem virófagos, vírus menores que vivem dentro de vírus gigantes.

Em 1992, Timothy Rowbotham identificou um microrganismo em Bradford, Inglaterra, durante um surto de pneumonia. A amostra, tirada de água do sistema de refrigeração de um hospital, continha uma ameba parasitada por um micróbio que parecia uma nova bactéria. O cultivo, porém, não foi possível.

Em 2003, Didier Raoult e equipe da Universidade de Aix-Marselha, na França, usaram microscópio eletrônico para revelar um vírus gigante, muito maior que a média viral, com genoma igualmente vasto. Chamaram-no Mimivirus, marcando o início de uma nova era na virologia.

Desde então, cientistas descobriram centenas de vírus gigantes ao redor do mundo, em ambientes como florestas, geleiras, oceanos e dentro de animais. O debate acadêmico questiona o que é vida, já que esses vírus desafiam definições tradicionais.

O que são os vírus gigantes

Os vírus são partículas de DNA ou RNA envoltas por uma proteína, sem células próprias. Não se alimentam, respiram ou produzem energia; sua função é reproduzir-se utilizando células hospedeiras. A replicação geralmente mata a célula.

O tamanho típico varia entre 20 nm e 200 nm. Mesmo assim, alguns vírus de amebas ultrapassam esse padrão, entrando no grupo considerado gigante, com genomas que podem superar os de bactérias simples.

Pandoravirus, Mimivirus e o crescimento do grupo

Entre os gigantes, o Pandoravirus, encontrado no Chile e na Austrália, tem o maior genoma da virosfera, com mais de 2,5 mil genes, e mais de 90% do material ainda é desconhecido pela ciência. Em 2014, o Pithovirus, resgatado do permafrost da Sibéria, alcançou o tamanho de 1.500 nm.

No Brasil, o grupo liderado por Jônatas Abrahão, da UFMG, traça uma linha de pesquisa de relevância mundial. Já foram descobertos mais de 300 vírus gigantes no país, com Sambavirus sendo o primeiro descrito em 2012 a partir do Rio Negro. Em 2025, surgiu Naiavirus, com 1.350 nm e uma cauda incomum.

Exemplos nacionais e internacionais

Entre as descobertas brasileiras, o Tupanvirus ganhou destaque. Detectado em amostras do Pantanal e também no fundo do mar da Bacia de Campos, ele mede cerca de 1.200 nm e pode chegar a 2.500 nm devido a uma cauda alongada. O vírus apresenta genes nunca vistos em outros vírus, incluindo várias enzimas de tradução e bastante diversidade gênica.

A presença de genes ligados à tradução proteica, produção de energia e reparo de DNA em vírus que, em teoria, não realizam essas funções, levanta questões sobre a natureza da vida. Cientistas discutem se os vírus gigantes constituem um novo domínio da vida ou se são derivados de vírus menores que evoluíram ao longo do tempo.

Virófagos e dilemas

Outra descoberta surpreendente envolve virófagos: vírus menores que ocupam espaço dentro de vírus gigantes e se aproveitam do maquinário viral para se replicar. Em alguns casos, esse parasitismo reduz a eficiência da replicação do vírus hospedeiro, acrescentando camadas de complexidade à virologia.

Essa multiplicidade de relações levanta ainda mais dúvidas sobre a definição de vida. A área, que começou há cerca de duas décadas, permanece com muitas perguntas sem resposta, alimentando pesquisas contínuas e novos descubrimentos.

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