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Zoológico mexicano que intrigou espanhóis há 500 anos, entendido hoje

Nova pesquisa mostra que o vivário de Moctezuma II tinha função ritual e de poder, ligando animais a mitos, oferendas e identidade da Tenochtitlán

O Templo Mayor é o maior sítio arqueológico já recuperado no centro da Cidade do México, ao lado do Palácio Nacional.
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  • Um vivário mantido na residência do imperador Moctezuma segundo, no coração de Tenochtitlán, abrigava dezenas de animais vindos de várias regiões do império.
  • Pesquisas recentes, com base em evidências científicas, reforçam a ideia de que o espaço era mais complexo do que um simples zoológico, ligando-se a mitos de criação e ao poder ritual dos mexicas.
  • O local possuía cerca de dez tanques de pedra vulcânica com água doce ou salgada, além de recintos com aves aquáticas, rãs, serpentes, jaguares, lobos e pumas, além de grandes viveiros de aves não nativas da região.
  • Documentos históricos, como o Mapa de Nuremberg e relatos de Hernán Cortés, descrevem o vivário com centenas de cuidadores e aves, destacando a observação de Moctezuma sobre os animais.
  • Pesquisadores, liderados pelo arqueólogo Israel Elizalde Méndez, analisam restos de vinte e oito exemplares encontrados em oferendas e tentam identificar as espécies e a função simbólica desses animais para os mexicas.

No coração de Tenochtitlán, antiga capital mexica, existia um espaço dedicado a animais em cativeiro. Mantido na residência do imperador Moctezuma II, o vivário abrigava espécies de todo o império pré-hispânico, cuidado por centenas de homens.

O local impressionou os espanhóis que o viram, incluindo Cortés, há cerca de 500 anos. Hoje, pesquisas com evidências científicas reconstroem como funcionava esse espaço, que vai além de um simples zoológico e tinha funções religiosas e políticas.

Segundo estudo, o vivário contava com cerca de dez tanques de pedra vulcânica, com água doce ou salgada. Nele viviam peixes, aves aquáticas, além de répteis, rãs, jaguares, lobos e pumas, distribuídos em vários recintos.

Havia grandes viveiros com aves migratórias, como águias-reais, harpias, araras e quetzais, trazidas de diferentes partes do império. A relação entre esses animais e o ambiente mexica era complexa, envolvendo significado ritual e demonstração de poder.

Relatos históricos ajudam a entender a função do espaço. Cortés descreveu que havia dezenas de cuidadores para as aves, com infraestrutura para manter as espécies de água doce e salgada, bem como áreas de observação para Moctezuma observar os animais.

Fontes antigas, como o Mapa de Nuremberg, já retratavam o vivário no cenário urbano de Tenochtitlán. A localização provável ficava perto do Palácio Nacional, ao lado do Templo Mayor, em área associada às casas do pai de Moctezuma II.

A gente sabe que o objetivo do espaço era muito além do entretenimento. Os animais integravam rituais de oferenda e símbolos de poder, usados por guerreiros e sacerdotes para representar coragem e autoridade em cerimônias no Templo Mayor.

Entre as evidências recentes, pesquisadores analisaram restos de 28 exemplares encontrados em oferendas do Templo Mayor, incluindo águia-real, harpia, jaguar, lobo e codorna. Estudos de paleopatologia ajudam a entender as condições de vida desses animais.

O trabalho de campo e análise é liderado pelo arqueólogo Israel Elizalde Méndez, que atua há mais de uma década nessa linha de pesquisa. O avanço integra o livro El cautiverio de los animales en la antigua ciudad de Tenochtitlan, lançado neste ano.

A investigação aponta que, sem o cuidado recebido, esses animais teriam tido vida mais curta na natureza. O vivário, portanto, reforça a presença de uma rede de manejo complexa que sustentava o acervo e o simbolismo associado.

Ao longo do Império Mexica, a fauna reunida na capital abrangia áreas geográficas desde o Golfo do México até regiões ao longo da fronteira com a Guatemala, evidenciando uma biodiversidade extraordinária para aquele período.

O estudo também analisa o papel dos animais nas oferendas, que tinham significado essencial para a relação dos mexicas com o cosmos. A presença de aves de rapina e penas em trajes de poder aparece como componente ritual.

Um aspecto ainda enigmático é justamente confirmar quais espécies ocupavam o vivário de Moctezuma II, diante das complexidades de escavar sob estruturas modernas em pleno centro da Cidade do México.

Desde 1978, o Projeto Templo Mayor tem sido essencial para revelar vestígios do passado mexica. O esforço contínuo de pesquisa permite compreender melhor o papel dos animais na vida religiosa, política e social da antiga cidade.

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