- Estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences analisou mais de 2 mil pessoas e usa o termo hasslers para descrever vínculos que criam problemas.
- Relações negativas vão de irritação a exclusão e podem impactar o organismo, elevando a inflamação e o cortisol, o que favorece o envelhecimento biológico (inflammaging).
- Cada vínculo conflituoso foi associado a cerca de 1,5% de aumento na velocidade do envelhecimento; o efeito pode se acumular ao longo do tempo.
- Mulheres, fumantes diários, pessoas com pior estado de saúde ou histórico de traumas na infância relatam mais vínculos desgastantes; o significado da relação também importa.
- Para reduzir impactos, recomenda-se melhorar a qualidade das relações, desenvolver comunicação e limites, cuidar do sono, manter atividade física e tratar ansiedade ou depressão quando necessário.
A relação entre vínculos sociais e saúde ganhou um novo foco com um estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). A pesquisa acompanhou mais de 2 mil pessoas e investigou como laços marcados por conflitos, tensão e sensação de sobrecarga afetam o organismo. O resultado aponta que vínculos difíceis podem considerar acentuadamente acelerar o envelhecimento biológico.
Os investigadores definem esses vínculos como “hasslers”, pessoas que criam problemas ou tornam a vida mais difícil. Esses relacionamentos vão desde irritações diárias até situações de exclusão, hostilidade e violência, podendo ser ambivalentes, com fases de apoio e de conflito. Cerca de 30% dos participantes relataram ao menos um vínculo desse tipo.
Para o geriatra Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, a pesquisa destaca um aspecto pouco discutido: vínculos de qualidade protegem a saúde, ao passo que relações carregadas de tensão atuam de modo oposto. O estudo relaciona esses vínculos com efeitos nocivos à saúde.
Impactos na saúde
O estudo associa laços conflitantes ao estresse crônico, que pode deixar de cumprir função adaptativa e gerar desgaste no organismo. O aumento persistente do cortisol e maior inflamação são citados como mecanismos relevantes, fenômeno conhecido como inflammaging.
Cada vínculo conflituoso foi relacionado a um incremento de aproximadamente 1,5% na velocidade do envelhecimento biológico. Embora o efeito isolado pareça pequeno, pesquisadores apontam que o acúmulo ao longo do tempo pode ter impacto relevante.
Entre os impactos, aparecem alterações no sono, irritabilidade, ansiedade, cansaço e dores físicas recorrentes. O psiquiatra André Botelho, do Hospital Sírio-Libanês, acrescenta que o estado de estresse contínuo pode afetar humor, memória, imunidade e energia.
Quando o conflito se torna um problema?
Segundo o presidente da SBGG, toda relação humana pode ter conflitos, mas há uma linha que separa o normal do prejudicial à saúde. Sinais incluem irritabilidade constante, alterações do sono e do apetite, ansiedade e cansaço persistentes, entre outros.
O profissional também destaca que o impacto não depende apenas do que acontece na interação, mas do significado para a pessoa e de como a situação é processada pela mente.
Relações difíceis de evitar
O estudo ressalta que vínculos negativos podem ocorrer no ambiente familiar, o que dificulta romper ou renegociar. Além disso, mulheres, fumantes diários, pessoas com pior estado de saúde e histórico de traumas na infância tendem a relatar mais vínculos desgastantes.
A avaliação clínica sugere observar se os efeitos vão além do momento da interação, mantendo-se no organismo após a conclusão do contato. Nesse caso, pode haver necessidade de manejo médico ou terapêutico.
Reduzindo impactos
Especialistas indicam caminhos para reduzir os efeitos na saúde, mesmo sem eliminar completamente relações difíceis. Fortalecer vínculos positivos, melhorar comunicação e estabelecer limites são apontados como medidas-chave.
Cuidados com sono, atividade física e manejo de sintomas de ansiedade ou depressão também são recomendados. Entender o papel de cada relação, seus gatilhos e limites possíveis ajuda a reduzir a exposição ao estresse persistente.
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