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Síndrome de Down molda o cérebro ainda durante a gestação

Mapa molecular do neocórtex pré-natal mostra que síndrome de Down interrompe o desenvolvimento cerebral, sugerindo causas para déficits cognitivos e de processamento sensorial

Estudo analisou cerca de 100 mil núcleos de amostras do neocórtex pré-natal de doadores entre a 13ª e 23ª semana de gestação - (crédito: Imagem de yanalya no Freepik)
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  • Cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles criaram um mapa molecular com resolução celular do cérebro em desenvolvimento, analisando cerca de 100 mil núcleos do neocórtex pré‑natal de 26 doadores entre a 13ª e a 23ª semana de gestação.
  • O estudo indica que, na síndrome de Down, a sequência de divisão e diferenciação das células progenitora é interrompida, levando ao esgotamento do estoque de progenitores e a um desequilíbrio na geração de neurônios.
  • Observa‑se aumento de neurônios intra telencéfalo em algumas regiões e redução de cortico‑talâmicos em outras áreas, o que pode afetar integração sensorial, controle motor e processamento de informações.
  • As descobertas ajudam a entender por que há déficits de atenção, processamento e velocidade cognitiva em pessoas com síndrome de Down, além de diferenças em cognição e aprendizagem.
  • Um segundo estudo, também publicado na Science, mostra, no pós‑natal inicial, desregulação ampla no cérebro de crianças com síndrome de Down, com alterações em metabolismo, formação de sinapses e maturação de oligodendrócitos, além de sinais de neuroinflamação precoce e de processos de neurodegeneração já na infância.

Cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles produziram um mapa molecular de alta resolução que mostra como a síndrome de Down afeta o desenvolvimento do cérebro ainda no útero. O estudo, divulgado na revista Science, analisou cerca de 100 mil núcleos do neocórtex pré-natal de 26 doadores entre a 13ª e a 23ª semanas de gestação, período em que ocorre a geração dos neurônios corticais. As descobertas indicam interrupção na sequência de desenvolvimento, com possíveis impactos na cognição e no processamento sensorial futuros.

A pesquisa revela que, na síndrome, as células progenitoras tendem a produzir neurônios de forma prematura, reduzindo o estoque de células disponíveis e desequilibrando os tipos celulares formados. Também houve variação regional: mais neurônios intra-telencencefálicos em algumas áreas e menos cortico-talâmicos em outras. Esses padrões podem explicar diferenças que aparecem mais tarde na função cerebral.

Para a neurologista Lorena Bochenek, do Hospital Mater Dei Goiânia, a redução de conexões cortico-talâmicas pode afetar a integração sensorial, o controle motor e o processamento tálamo-cortical. Ela cita ainda possível lentidão cognitiva e dificuldades de resposta ao ambiente, além de redes corticais mais densas e possivelmente menos eficientes.

Segundo pesquisadores, o novo mapa oferece uma hipótese sobre por que pessoas com síndrome de Down costumam ter cérebros menores. Ao contrário de teorias que enfatizavam morte neuronal generalizada, o estudo aponta para esgotamento do conjunto de células progenitoras como uma explicação plausível para o tamanho cerebral reduzido.

A equipe também examinou a relação entre as alterações moleculares identificadas e sinais de risco genético associados a outras condições neurodesenvolvimentais, como autismo, epilepsia e atraso no desenvolvimento. Houve convergência substancial, sugerindo que a síndrome pode servir como modelo para entender deficiências cognitivas de forma mais ampla.

Além da síndrome

Outro estudo publicado na Science, ainda na mesma edição, descreve como a síndrome de Down molda o cérebro nos primeiros anos de vida. Analisando o córtex pré-frontal de crianças com a condição, com sequenciamento de núcleos individuais, os cientistas construíram um atlas molecular das células nessa fase.

Observou-se desregulação complexa em genes ligados ao metabolismo, à formação de sinapses e à mielinização, com alterações em oligodendrócitos e células imunológicas do cérebro. Aumento de neurônios excitadores nas camadas superiores do córtex ocorreu junto de falhas no desenvolvimento de oligodendrócitos, o que pode comprometer a transmissão dos sinais nervosos.

Indícios de neuroinflamação precoce foram detectados, com ativação de micróglias e astrócitos, sugerindo interferência na maturação neuronal já na infância. Além disso, processos associados à neurodegeneração, como estresse oxidativo e perda sináptica, surgiram ainda cedo, apontando para uma coexistência de desenvolvimento alterado e mecanismos degenerativos.

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, avalia que o avanço científico traz uma base inicial para entender o mecanismo. Segundo ele, o estudo descreve o desequilíbrio entre células progenitoras e neurônios na síndrome, o que pode explicar parte das alterações cognitivas, mas o trabalho ainda é exploratório e precisa de mais evidências.

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