- Estudo inédito, publicado na Ecography, mostra que plantas da Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais, não conseguem acompanhar o aquecimento dos últimos quarenta anos.
- A análise de 247 parcelas de campo e imagens Landsat de 1984 a 2022 revelou folhas maiores e menos densas ao longo do tempo, indicando inércia funcional frente ao clima.
- O ecossistema estudado abastece água, energia e alimento para mais de cinquenta milhões de brasileiros.
- O solo raso, ácido e rico em metais pesados, somado ao aquecimento, impõe limites de sobrevivência; incêndios mais frequentes podem favorecer plantas com tecidos menos densos.
- Os pesquisadores defendem conservar a diversidade de solos e microclimas para aumentar a resiliência do ecossistema diante das mudanças climáticas.
O aquecimento global empurra o clima para além da capacidade de adaptação de algumas plantas. Estudo inédito revela que a vegetação da Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais, enfrenta estresse funcional após quatro décadas de aumento de temperatura. A pesquisa envolve UFMG, INCT/CNPq/MCTI e a University of London, e foi publicada na Ecography.
Os cientistas analisaram 247 parcelas de campo e imagens de satélite Landsat de 1984 a 2022 para observar mudanças nas folhas, que funcionam como “usinas fotovoltaicas” do ecossistema. Os resultados indicam que, diante da aridez crescente, as plantas desenvolveram folhas maiores e menos densas, em vez de uma resposta esperada de menor tamanho e maior densidade.
Essa resposta lenta pode significar ajustes graduais nas espécies já presentes ou uma substituição lenta ao longo do tempo. Além disso, o aumento frequente de incêndios na região pode favorecer plantas com tecidos menos densos, ampliando a vulnerabilidade ao estresse hídrico.
O solo da Cordilheira do Espinhaço é descrito como extremamente desafiador: rasos, ácidos e com metais pesados. O clima atua sobre o desenvolvimento, mas o solo impõe limites fundamentais à sobrevivência das espécies. A combinação de solo exigente e aquecimento acelerado explica a fragilidade do ecossistema.
O estudo reforça a importância de conservar não apenas as espécies, mas a variedade de solos e as condições microclimáticas que sustentam o ecossistema. Manter essa heterogeneidade é visto como-chave para a resiliência frente às mudanças climáticas.
Para orientar políticas públicas e manejo, os pesquisadores destacam a necessidade de compreender os mecanismos de adaptação do ecossistema. O foco é proteger a diversidade de condições locais que permitem absorver novos estresses globais, segundo o coordenador Geraldo Fernandes.
Entre na conversa da comunidade