- Pesquisa da Universidade Católica de Brasília mostra como a Klebsiella pneumoniae, ligada a infecções hospitalares graves, pode resistir a antibióticos, incluindo combinações de amicacina e polimixina B.
- Em experimento evolutivo in vitro, a bactéria se adaptou em quarenta e cinco ciclos, tolerando até dez vezes mais polimixina B e cinco vezes mais amicacina.
- A resistência ficou estável mesmo após a retirada dos fármacos, indicando alterações duráveis no material genético.
- A Organização Mundial da Saúde classifica a bactéria como ameaça prioritária e o estudo sugere uma capacidade de adaptação maior do que se imaginava.
- Especialistas destacam a necessidade de compreender a evolução da resistência para buscar novas estratégias terapêuticas e evitar uso inadequado de antibióticos.
Desenvolvimento realizado pela Universidade Católica de Brasília (UCB) aponta como a Klebsiella pneumoniae, bactéria associada a infecções graves em hospitais, pode evoluir para resistência mesmo a terapias combinadas. O estudo foi publicado na revista ACS Infectious Disease.
A pesquisa mostra que a bactéria, já classificada como ameaça prioritária pela OMS, pode adaptar-se rapidamente a combinações de antibióticos usadas em situações críticas. Os resultados indicam capacidade de defesa sofisticada diante de tratamentos tradicionais.
Os cientistas ressaltam que a capacidade de adaptação pode superar o que se imaginava, aumentando a preocupação com o uso clínico de combinações de antibióticos. A investigação enfatiza a necessidade de novas estratégias terapêuticas.
Concentrações
A equipe executou um experimento evolutivo in vitro simulando ambiente hospitalar. A Klebsiella foi exposta a doses subinibitórias de antibióticos, exercendo pressão seletiva. A cepa estudada produzia a enzima KPC, associada a resistência.
Ao longo de 45 ciclos, a bactéria adaptou-se rapidamente. Passou a tolerar polimixina B em níveis até 10 vezes acima do limite e amicacina até cinco vezes acima. A resistência manteve-se estável após a retirada dos fármacos.
Sequenciamento completo do genoma e análises transcriptômicas revelaram mutações em genes da estrutura celular e regulação. Também houve ativação de sistemas de resistência já conhecidos.
Ameaça global
A resistência bacteriana é considerada uma das maiores ameaças à saúde do século 21. A OMS estima cerca de 1,27 milhão de mortes anuais por infecções associadas a micro-organismos resistentes. O impacto é maior quando se somam fatores contribuinte.
Projeções indicam que, até 2050, o número de óbitos pode superar 10 milhões por ano se não houver medidas eficazes. A Klebsiella pneumoniae figura entre as principais causadoras de infecções hospitalares, incluindo pneumonia, infecções urinárias e septicemia.
Os autores da pesquisa destacam que o estudo revela o caminho evolutivo da resistência, ajudando a entender como novas cepas surgem em ambientes hospitalares. O objetivo é orientar o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas.
Amostra
O infectologista André Bonn, coordenador de Infectologia do Hospital Brasília, observa que a amostra foi fornecida por um hospital. Bactérias hospitalares já costumam ter genes de resistência, e doses subótimas podem selecionar subpopulações com mecanismos adicionais.
Ele ressalta que a prescrição correta de antibióticos, no tempo e com intervalos adequados, mantém concentrações estáveis no sangue e evita a exposição a situações de subdosagem que favoreçam a resistência.
Duas perguntas para
Octávio Luiz Franco, professor da UCB, comenta sobre o uso clínico de terapias combinadas e o que pode ocorrer no futuro. A pesquisa aponta limites para as combinações atuais, aumentando a necessidade de novas estratégias terapêuticas, inclusive com moléculas não convencionais.
Franco também analisa a possibilidade de explorar o custo energético da resistência. Embora as bactérias gastem mais energia para resistir, ainda assim encontram caminhos. Estratégias que elevate o estresse bacteriano podem favorecer o controle clínico.
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