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Desafio é sintetizar evidências, não apenas produzir mais

Diante da explosão de produção científica, urge priorizar sínteses de evidência vivas e contextualizadas para orientar decisões públicas

Maria Cristiane Barbosa Galvão – Foto: Lattes
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  • A ciência produzida hoje cresce em volume, mas boa parte permanece como estudos isolados ou revisões não sistemáticas, dificultando sínteses de evidência confiáveis.
  • A produção abundante não implica impacto social ou melhoria prática; é necessário transformar dados em sínteses que orientem decisões e políticas.
  • As métricas de produtividade acadêmica, associadas a rankings internacionais, nem sempre refletem relevância ou aplicabilidade local, especialmente no Sul Global e no Brasil.
  • Propõe-se ampliar métodos de revisão para incluir evidências mistas, vivas e contextuais, com atualizações contínuas para acompanhar novos estudos e necessidades sociais.
  • Enfatiza-se a importância de políticas e governança que valorizem a síntese de evidências e a curadoria pedagógica, conectando pesquisa pública a realidades locais e sociais.

Em 2025, a produção científica continua em expansão, mas a síntese de evidências não acompanha o ritmo. Dados de bases internacionais apontam: cerca de 4,6 milhões de documentos na Scopus, 4,3 milhões na Web of Science e 1,8 milhão na PubMed apenas neste ano.

A professora Maria Cristiane Barbosa Galvão, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, alerta para a distância entre quantidade de artigos e impacto social. Muitos trabalhos são exploratórios, não reproduzíveis ou com limitações metodológicas que dificultam sínteses confiáveis.

A autora destaca ainda que o sistema de avaliação costuma privilegiar produtividade e citações, o que nem sempre se traduz em evidência capaz de orientar políticas públicas ou práticas clínicas. No Brasil, a ciência recebe recursos públicos, mas as métricas não refletem seu impacto real.

Além do desafio de leitura rápida diante do volume, há o uso crescente de ferramentas de inteligência artificial para leitura e síntese. Isso impõe dilemas sobre qualidade, limitações e prazos na formação de pesquisadores.

Para enfrentar o problema, Galvão sugere políticas e governança que valorizem a síntese de evidências. São apresentadas opções como revisões sistemáticas, revisões mistas e revisões vivas, com atualização contínua.

Ela argumenta pela adoção de abordagens que integrem métodos quantitativos e qualitativos, contextualizando resultados para diferentes realidades sociais. A ênfase está na aplicabilidade prática das evidências.

A pesquisadora enfatiza a necessidade de contextualizar a produção científica no Sul Global. Evidências locais, adaptadas a culturas e condições específicas, ganham relevância para intervenções efetivas.

Segundo a autora, o objetivo é deslocar o foco da quantidade para a qualidade e relevância da evidência. O alinhamento entre produção acadêmica e problemas sociais é visto como essencial.

A reflexão final aponta que o investimento público em ciência deve buscar sínteses robustas e atualizadas. A construção de evidências vivas e contextualizadas é apresentada como caminho para uma ciência mais relevante.

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