- Um metaestudo publicado na Lancet avaliou mais de cinquenta ensaios com canabinoides e quase 2.500 participantes, verificando eficácia moderada ou baixa de fármacos com THC para doenças mentais e dependências.
- Em alguns casos, houve benefícios: redução do desejo por opioides em dependentes e aumento do tempo de sono em quem sofre de insônia crônica; porém, a eficácia foi menor para sintomas neurológicos graves, como Tourette, e mínima para dependência de cocaína, crack, cannabis, autismo, transtorno de estresse pós-traumático ou psicose.
- Os autores ressaltaram a escassa evidência e a lacuna entre uso clínico e dados disponíveis, defendendo cautela e mais pesquisa, pois terapias com cannabis podem atrasar ou substituir tratamentos mais eficazes.
- Pesquisa da Universidade de Bath mostrou que quem se automedica com cannabis para ansiedade, depressão ou desconfortos físicos tende a consumir mais THC e apresentar piora em ansiedade, depressão e paranoia.
- No Reino Unido, a prescrição de cannabis medicinal cresceu rapidamente desde 2018, com milhares de receitas em 2023 e mais de seiscentas mil em 2024; especialistas criticam a prática e pedem maior rigor e limites para condições psiquiátricas.
A cannabis medicinal tem sido adotada em várias jurisdições como tratamento para doenças físicas, mentais e dependências. Contudo, um estudo recente coloca em dúvida a eficácia dessa abordagem para transtornos mentais, comparando promessas com evidências.
A revisão, publicada na The Lancet, analisa mais de 50 ensaios realizados entre 1980 e 2025, com quase 2.5 mil participantes. As doses de THC, seja via óleo ou inalação, mostraram benefício moderado apenas em casos específicos, como redução do desejo por opioides e melhoria do sono em insônia crônica.
Mesmo quando houve ganhos, a eficácia foi restrita a condições mais simples. Em distúrbios como a síndrome de Tourette, os resultados foram baixos, e para dependência de cocaína, crack ou cannabis, bem como para autismo ou estresse pós-traumático, os efeitos foram mínimos ou ausentes.
Os autores destacam a lacuna entre uso clínico e evidência disponível. O pesquisador principal, em entrevista, afirmou a necessidade de mais estudos, especialmente para condições com poucas opções terapêuticas. O alerta é de cautela para evitar atrasos em tratamentos mais eficazes.
Paralelamente, uma pesquisa da Universidade de Bath mostra que automedicação com cannabis tende a aumentar o consumo de THC e eleva riscos de ansiedade, depressão e paranoia. Entre quase 3.4 mil adultos, cerca de 700 citaram uso médico, com maior consumo entre quem buscava alívio de ansiedade ou depressão.
Os especialistas acrescentam que o rótulo médico não impede danos. O estudo sugere que pessoas que se automedicam usam doses mais altas, o que pode intensificar problemas de saúde mental associadas. O resultado aponta que o uso medicinal não substitui a necessidade de acompanhamento médico adequado.
No Reino Unido, o andamento regulatório começou em 2018 com três fármacos à base de THC. Embora as regras fossem rígidas, o acesso ficou mais flexível ao longo do tempo, com prescrições aumentando de forma expressiva. Relatos de médicos indicam que a cannabis tem sido indicada para depressão e ansiedade, além de condições físicas.
Dados oficiais mostram crescimento significativo: as prescrições de cannabis medicinal chegaram a quase 283 mil em 2023 e superaram 659 mil no ano seguinte. Analistas apontam que parte desse aumento decorre de ampliação de uso fora de indicações estritamente definidas.
Há casos de mortalidade associada ao uso de cannabis medicinal no Reino Unido, ainda que raros. Um exemplo envolve um paciente que, durante um estudo, desenvolveu depressão resistente, transtornos comportamentais e dependência, levando a falhas no acompanhamento clínico. Especialistas questionam vínculos entre prescrição e manejo adequado de doenças mentais.
Especialistas britânicos se dividem quanto à rigidez dos critérios de prescrição. Um médico e ex-presidente de sociedade médica afirma que há risco de uso indevido e prega maior cautela, limitando a cannabis para dor, não para tratamentos psiquiátricos. O monitoramento regulatório segue em análise por comitês de uso de drogas e saúde mental.
O estudo do The Lancet reforça a necessidade de revisar estratégias de uso de canabinoides no contexto psiquiátrico. Enquanto a cannabis não é associada a mortes diretas por overdose, relatos de efeitos adversos e falhas de acompanhamento permanecem como ponto de atenção para políticas públicas e práticas clínicas.
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