- O queniano Michael Geoffrey Asia, ex-moderador de chat e atual secretário-geral da Data Labelers Association, descreve como operava de três a cinco personas distintas para conversas íntimas com usuários, recebendo us$ 0,05 por mensagem.
- Asia trabalhou como colaborador terceirizado em projetos ligados a Sama, CloudFactory, TELUS International, TransPerfect DataForce, Appen e NMS Philippines; o relato está na publicação de 2025 The Emotional Labor Behind AI Intimacy.
- O estudo conjunto do DAIR Institute, Weizenbaum Institute e da Technische Universität Berlin mostra que, por trás de promessas de autonomia, há trabalho humano com confidencialidade, salários baixos e atividade não qualificada.
- A prática levanta questões éticas e legais sobre saúde mental, burnout e erosão identitária, já que manter várias personas exige controle emocional em tempo real e pode corroer vínculos pessoais.
- Asia aponta risco específico para o Brasil, devido à informalidade e à demanda por renda, e o caso é acompanhado em ações judiciais, com debates sobre responsabilidade das plataformas pelas condições de trabalho terceirizado.
Michael Geoffrey Asia, queniano, destacou-se ao revelar a cadeia humana por trás de IA de relacionamento. O relato foi publicado em 2025 pela Data Workers’ Inquiry e hoje compõe estudo conjunto de DAIR Institute, Weizenbaum Institute e TU Berlin.
Asia, que já atuou como moderador de chat e secretário-geral da Data Labelers Association, descreve um regime em que trabalhadores recebem US$ 0,05 por mensagem. A função envolve gerenciar de 3 a 5 personas simultâneas, com identidades distintas, sempre sob confidencialidade.
O cenário ocorre em Nairóbi, na favela de Mathare, onde Asia afirma ter treinado substituições humanas para chats de IA. Ele trabalhava como colaborador terceirizado em empresas como Sama, CloudFactory, TELUS International, TransPerfect DataForce, Appen e NMS Philippines.
Contexto e impacto
O estudo baseia-se na experiência de Asia e em entrevistas com sete colegas. A lógica é gerar dados para treinamento de algoritmos usados em “companheiros” digitais autônomos. O objetivo é manter vínculos emocionalmente envolventes com usuários.
A investigação levanta a hipótese de que a autonomia algorítmica oculta trabalho humano sob confidencialidade, com salários baixos e classificação como atividade não qualificada. O conjunto de tarefas inclui manter coerência emocional e continuidade entre operadores diferentes.
Processos, remuneração e riscos
Entre as tarefas, as respostas visam não apenas atender, mas manter o usuário engajado. O pagamento por mensagem acompanha metas de velocidade e volume, com monitoramento de retenção e continuidade da conversa. O trabalho expõe os operários a jornadas intensas e estresse emocional.
A prática é alvo de ações judiciais no Quênia. Em 2022, Daniel Motaung processou a Meta e a Sama por condições de trabalho abusivas em moderação de conteúdo em Nairóbi. Em 2023, a Justiça allowou que a Meta pudesse ser processada localmente.
Reflexos pessoais e implicações
Asia relata que a multiplicação de personas causou dissociação. A dificuldade em diferenciar sentimentos verdadeiros de performances digitais atingiu sua vida pessoal. O relato aponta fragilidades estruturais do modelo de negócios que conectam trabalhador, plataforma e usuário.
A cadeia de subcontratação dificulta atribuição de responsabilidade. Empresas internacionais contratam por meio de múltiplas camadas, o que complica a prestação de contas e a regulamentação. O quadro é visto como um risco para trabalhadores em mercados de alta conectividade e informalidade.
Panorama estratégico e regulações
Especialistas destacam a necessidade de políticas que protejam saúde mental de trabalhadores digitais. A narrativa também aponta a necessidade de regulação que abranja cadeia transnacional de data work. A discussão envolve o papel de plataformas, fornecedores e reguladores.
Timnit Gebru, associada ao DAIR, já comentou sobre a dualidade do debate público: inovação tecnológica vs. automação predatória. O tema ganha relevância em congressos e painéis, com foco na governança e na responsabilização das empresas.
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