- Prescrições de ivermectina para tratamento de câncer nos EUA quase dobraram após Mel Gibson dizer, em 2023, que amigos teriam se recuperado; estudo publicado na JAMA Network Open.
- A UCLA analisou dados de mais de 68 milhões de pacientes e mostrou que as taxas de prescrição dobraram entre janeiro e julho de 2025 em relação ao mesmo período de 2024; entre pessoas com câncer, o aumento foi de mais de 2,5 vezes.
- Cientistas destacam que, embora haja atividade anticancerígena em laboratório e em animais, nenhum ensaio clínico comprovou segurança ou eficácia em humanos.
- No Brasil, a ivermectina é aprovada apenas para infecções parasitárias pela Anvisa; o fenbendazol é antiparasitário de uso veterinário; médicos alertam para riscos de atraso ou abandono de terapias comprovadas.
- Especialistas ressaltam a importância de informações confiáveis, enfatizam o papel do profissional de saúde em esclarecer dúvidas e evitar promessas de cura rápida ou tratamentos não comprovados.
Nos Estados Unidos, as prescrições de ivermectina para tratamento de câncer aumentaram de forma expressiva após uma declaração de Mel Gibson, em janeiro do ano passado, de que três amigos teriam se recuperado de câncer avançado usando o medicamento. A informação é apresentada em estudo publicado na JAMA Network Open, nesta semana.
A pesquisa, conduzida pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, analisou registros de saúde anonimizados de mais de 68 milhões de pacientes entre 18 e 90 anos. O objetivo foi observar padrões de prescrição de ivermectina em combinação com benzimidazóis, como o fenbendazol, após o comentário do ator.
O estudo compara o período de 1º de janeiro a 31 de julho de 2025 com o mesmo intervalo do ano anterior. Os dados mostram que as taxas gerais de prescrição dobraram nos meses seguintes ao pronunciamento de Gibson.
Entre pacientes com câncer, a elevação foi ainda maior: as prescrições aumentaram mais de 2,5 vezes no período estudado, em relação ao ano anterior. Cientistas destacam que não há comprovação clínica de eficácia desses remédios contra o câncer em humanos.
Dados e limitações do estudo
O levantamento aponta que, embora existam evidências pré-clínicas de atividade anticancerígena em laboratório e em animais, nenhum ensaio clínico confirmou segurança ou eficácia em pacientes. Por ser observacional, não há relação causal comprovada.
Os autores enfatizam que o uso desses fármacos pode atrasar ou substituir terapias convencionais, cuja eficácia já foi demonstrada. A pesquisa ressalta a importância de avaliar riscos, doses e interações medicamentosas.
A visão de especialistas e contexto brasileiro
A médica Clarissa Baldotto, oncologista clínica e presidente da SBOC, explicou que resultados de laboratório não equivalem a evidência clínica. Ela reforça que a decisão terapêutica deve seguir dados confiáveis e orientação médica.
Segundo a especialista, pacientes costumam buscar informações em conteúdos online, o que aumenta a necessidade de diálogo com a equipe de saúde. O objetivo é esclarecer diferenças entre hipótese científica e evidência clínica, bem como riscos envolvidos.
No Brasil, a ivermectina tem aprovação da Anvisa apenas para infecções parasitárias, e o fenbendazol é um antiparasitário de uso veterinário. Médicos destacam que promessas de cura rápida não devem influenciar o manejo terapêutico de câncer.
Riscos para pacientes
A principal preocupação é o atraso ou abandono de tratamentos comprovados, caso pacientes recorram a terapias não comprovadas. Especialistas ressaltam que, em oncologia, o tempo e a sequência de tratamentos são determinantes para resultados.
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