- Debate sobre a possível separação das categorias do TEA expõe tensão entre autistas nível 1 e pais de casos severos.
- Autismo profundo representa 26% dos autistas, mas recebe apenas 6% das pesquisas.
- Autistas de nível 1 costumam liderar movimentos, enquanto níveis 2 e 3 apresentam maiores dificuldades de comunicação e deficiência intelectual.
- A unificação do TEA dificulta políticas públicas, diagnósticos e inclusão escolar, além de impactar o custeio de profissionais especializados.
- Especialistas alertam que o debate pode levar ao fim do conceito de espectro no DSM, o que pode influenciar identidade coletiva e mobilização por direitos.
O debate sobre a possibilidade de separar as categorias do TEA, o Transtorno do Espectro Autista, evidencia uma tensão entre autistas nível 1, considerados leves, e pais de autistas com grau severo. Autistas de nível 1 costumam liderar movimentos, enquanto familiares de casos mais graves discordam da representação.
Conflitos aparecem pela diferença entre indivíduos com habilidades verbais e intelectuais preservadas e aqueles com deficiência intelectual significativa e dificuldades de comunicação. O espectro, definido pela última edição do DSM em 2013, classifica o TEA em níveis 1, 2 e 3 conforme a necessidade de apoio.
O tema ganhou fôlego entre cientistas que discutem mudanças no DSM para a próxima edição. A unificação das condições facilita políticas públicas, educação e diagnóstico, mas também é alvo de críticas por não atender de forma igual os diferentes perfis.
Para o pesquisador Lucelmo Lacerda, há uma disputa entre representantes de autistas de grau mais leve e famílias de pontos mais graves. Lacerda atua em instituições internacionais de referência e tem experiência pessoal com o autismo severo em seu filho.
O autismo profundo envolve 26% dos autistas, enquanto apenas 6% das pesquisas centram esforços nesse grupo. Em camadas de pesquisa, questionamentos surgem sobre a aplicação de estudos a todos, quando as necessidades variam entre os níveis 1, 2 e 3.
Um caso citado envolve a equoterapia, que atende autistas de níveis 2 e 3. Pais de autistas nível 1 contestaram a escolha, argumentando que o estudo não pode tratar igualmente indivíduos com condições distintas, ainda que o objetivo seja avançar conhecimentos.
A unificação também impacta políticas públicas, como a inclusão escolar e a alocação de recursos. Projeta-se que custos para contratação de profissionais especializados sejam calculados com base no total do TEA, independentemente de o grupo utilizar determinados benefícios.
A cobertura midiática tende a privilegiar histórias de autismo nivel 1, com narrativas de superação e conquistas acadêmicas. Lacerda afirma que esse desequilíbrio reforça uma percepção distorcida da realidade vivida por autistas de níveis mais graves.
Além disso, o discurso de que ter autismo leve representa um privilégio é contestado por movimentos online, que destacam sofrimento emocional, desemprego e burnout entre quem não se encaixa nesse rótulo.
Especialistas ouvidos apontam que o debate atual reflete a evolução da neurociência e o amadurecimento de conceitos. A preocupação central é evitar fragmentação excessiva que fragilize a mobilização por diagnóstico precoce e intervenções mínimas de qualidade.
Para o neuropediatra Paulo Liberalesso, o espectro foi essencial para a construção de identidades coletivas e de direitos. No entanto, ele enfatiza que dividir demais o diagnóstico pode enfraquecer a defesa dos autistas.
O debate permanece sem conclusão sobre o futuro do conceito de espectro no DSM, com opiniões diversas entre pesquisadores e profissionais da área.
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