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Prontuários do Juquery revelam prática racista em tratamentos psiquiátricos

Prontuários do Juquery revelam prática racista eugenista: internações de negros apresentaram mortalidade maior e cura inferior, com pouca assistência médica

Interno do Juquery em suas primeiras décadas de funcionamento, quando instituição era baseada em infundadas teorias da eugenia e da degenerescência
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  • Prontuários do Hospital Psiquiátrico Juquery, em São Paulo, revelam racismo institucional, embasado em teorias eugenistas desde o início, incluindo casos descritos de internação de pessoas negras com diagnóstico e tratamento discriminatórios.
  • Entre 1908 e 1911, relatos citam pacientes negros com descrições pejorativas e classificações de “degeneração” associadas a raça, num contexto de controle social da medicina da época.
  • Na primeira metade do século, houve mortalidade mais alta entre pacientes negros (setenta e nove por cento) do que entre brancos (cinquenta e sete por cento), e taxas de cura menores (dezoito vírgula oito por cento contra vinte e dois vírgula nove por cento).
  • A maioria dos admitidos no Juquery nas duas primeiras décadas foi encaminhada pelo Estado (noventa e nove por cento), com pouca intervenção de familiares (um por cento), revelando políticas de “limpeza social” via psiquiatria.
  • Em mil novecentos vinte e seis, surgiu a Liga Paulista de Higiene Mental para disseminar a eugenia na sociedade; o Juquery funcionou até dois mil e vinte e um, mudando apenas o tempo de prática, não o modelo de confinamento.

O prontuário de uma mulher de 20 anos internada em 1911 no Hospital Psiquiátrico Juquery, na região de São Paulo, aponta para a aplicação de conceitos raciais na avaliação clínica. Registros médicos associaram alcoolismo a traços da suposta degeneração da raça preta, sugerindo efeitos exagerados de álcool nesses pacientes. Em 1908, outro prontuário descreveu um homem negro de 50 anos em termos de delírio epilético entre degenerados.

A instituição, inaugurada em 1898 como Asilo de Alienados do Juquery, funcionou sob o impacto de teorias da eugenia e da degenerescência. A ideia era assegurar suposta melhoria social por meio da exclusão social de indivíduos considerados menos desenvolvidos, com a psiquiatria servindo como ferramenta de controle. A Liga Paulista de Higiene Mental, criada em 1926, funcionou dentro do Juquery.

A pesquisadora Rosana Machin Barbosa analisou prontuários das duas primeiras décadas do Juquery e verificou mortalidade elevada entre os internos negros, com maiores taxas de óbito que os brancos e menores taxas de cura. Segundo a estudiosa, não havia tratamento médico efetivo presente na prática institucional da época. Em alguns casos, o atendimento médico ocorreu demoradamente, como no episódio de uma paciente internada em 1908 que só teve contato com o médico em 1911.

Contexto institucional e social

A pesquisadora aponta que a metrópole paulista, em expansão, associou a medicina social a um aparato policial médico. A maioria das admissões não partiu de familiares, mas de intervenções estatais, o que reforçou a ideia de limpeza social por meio da psiquiatria. O hospital, inicialmente, operava sob a perspectiva de que a cidade precisava conter degenerações para manter a ordem pública.

A eugenia ganhou força pública no Estado de São Paulo com a LPHM, que promoveu campanhas em fábricas, escolas e espaços públicos. Entre as propostas defendidas pela liga estavam restrições a casamentos, estudos sobre a suposta ameaça de misturas raciais e, no campo da saúde, medidas de controle reprodutivo e de imigração. A atuação da liga se conectava com a gestão do Juquery, que recebeu direção médica entre 1923 e 1937.

A partir do pós-Segunda Guerra Mundial, a eugenia perdeu força globalmente, mas o Juquery permaneceu ativo até 2021, mantendo um modelo psiquiátrico baseado em confinamento e em práticas consideradas ultrapassadas. A história do hospital é usada para compreender o papel da medicina social e das políticas públicas de saúde mental no Brasil, bem como as consequências de preconceitos raciais presentes no imaginário médico da época.

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