- Descoberta, em Wisconsin (Estados Unidos), de uma nova espécie de miriápode do Siluriano chamada Waukartus muscularis, com cerca de quatrocentos e vinte e cinco milhões de anos.
- Fósseis, encontrados numa pedreira de Waukesha, armazenados em ambiente com baixo oxigênio, preservando detalhes da anatomia interna.
- O exemplar tinha 11 segmentos corporais, membros curtos e segmentados, e estruturas na frente da cabeça que podem ter função sensorial ou de alimentação; o corpo era coberto por pares de apêndices.
- As evidências sugerem que esse grupo já apresentava adaptações para a vida em terra muito antes de migrar para o ambiente terrestrial, com locomotora semelhante à dos piolhos-de-cobra.
- A descrição foi publicada pelos paleontólogos Derek Briggs, Donald Mikulic e Joanne Kluessendorf; o material analisado está na coleção do Museu de Geologia da Universidade de Wisconsin.
Oito pesquisadores descrevem uma nova espécie de miriápode fossilizado, batizada de Waukartus muscularis. Os fósseis têm origem no Siluriano, há cerca de 425 a 437 milhões de anos, encontrados na pedreira de Waukesha, no estado americano de Wisconsin. A descoberta lança luz sobre como esses artrópodes se encantaram com a vida terrestre.
Os fósseis foram preservados graças a um ambiente inócuo: uma baía rasa, salobra e com baixos níveis de oxigênio, que, junto a tapetes microbianos, enterrou rapidamente as carcaças. A área, na época, ficava próxima ao equador, conectando-se ao litoral boreal atual.
A espécie tem corpo segmentado em 11 partes, com apêndices ao longo do tronco. A frente possui um conjunto de membros sensoriais, enquanto a traseira encerra estruturas em forma de lâmina. O animal apresentava pernas curtas e articuladas, sem brânquias evidentes, sugerindo locomoção adaptada ao fundo marinho.
Descoberta e contexto
A equipe liderada por Derek Briggs, paleontólogo da Universidade de Yale, examinou 35 fósseis no Museu de Geologia da Universidade de Wisconsin. O achado representa a descrição formal após décadas de estudo de material coletado na década de 1980 por Mikulic e Kluessendorf.
A publicação, divulgada recentemente na Proceedings of the Royal Society B, aponta que esses miriápodes já exibiam legibilidade de estruturas terrestres antes de migrar para terra firme. A pesquisa reforça a hipótese de que a transição para o ambiente terrestre começou muito antes do registro mais explícito de vida terrestre.
Segundo Briggs, os miriápodes possuíam uma vantagem ao chegar ao ambiente seco, em comparação com seus parentes aquáticos. Outros especialistas destacam que o período Siluriano foi decisivo para entender a origem de formas terrestres mais complexas, com preservação excepcional de traços anatômicos.
Os fósseis de Waukesha revelam detalhes internos, incluindo músculos petrificados com mineralização que permite inferir a organização corporal. Alguns exemplares conservam vestígios de olhos e, em uma peça, indícios de um órgão semelhante a um coração.
Características anatômicas e implicações
O novo gênero demonstra que os miriápodes já exibiam uma locomoção eficiente com pares de apêndices ao longo do corpo, além de um pequeno conjunto anterior com função sensorial. A forma das pernas sugere adaptação ao substrato, semelhante ao movimento observado em miriápodes modernos em terra.
Comparações com trilobitas da época mostram diferenças marcantes: as pernas do Waukartus não apresentam estruturas branquiais, indicando que a evolução para o deslocamento terrestre ocorreu antes de adaptações respiratórias específicas. A sequência de mudanças aponta para uma transição gradual, não abrupta.
Entomologista consultado para a matéria comenta que outros fósseis do Siluriano devem revelar grupos que se preparavam para a vida em terra. O período emergente é visto como crucial para entender o caminho que levou a formas terrestres sofisticadas, ainda que as evidências permaneçam fragmentadas.
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