- A doença passa a ser chamada de síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP), mudança resultado de um consenso global envolvendo 56 organizações e mais de 14 mil respostas.
- Estima-se que uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva tenha a condição, com diagnóstico atrasado em até 70% dos casos.
- Não existe cisto: o que aparece no ultrassom são folículos que não se desenvolveram para liberar o óvulo; a SOMP envolve alterações metabólicas, hormonais e risco cardiovascular.
- O diagnóstico segue critérios internacionais de 2023: para adultos, pelo menos dois de três itens: menstruação irregular, aumento de androgênios e alterações em ultrassom ou AMH elevado; para adolescentes, critérios são mais restritos.
- A SOMP é uma condição poliendócrina e metabólica, com resistência à insulina presente em cerca de 85% das pessoas, elevando risco de diabetes, pré-diabetes e colesterol alto; tratamento é personalizado, com alimentação, atividade física e, se necessário, uso de pílulas combinadas.
A comunidade científica global adotou uma nova denominação para a condição conhecida como SOP. A partir de um consenso publicado no The Lancet, a doença passa a ser chamada de síndrome ovariana metabólica poliendócrina, ou SOMP. A mudança busca corrigir equívocos históricos sobre o que, de fato, ocorre no organismo.
Estudos e consultas mobilizaram 56 organizações, com mais de 14 mil respostas. Representantes de todas as regiões participaram do processo, que envolveu pacientes e profissionais. No Brasil, a endocrinologista Poli Mara Spritzer foi a única brasileira entre os responsáveis pela atualização.
De acordo com Spritzer, o nome anterior era enganoso porque sugeria problema exclusivo nos ovários. A nova nomenclatura reforça que se trata de uma doença sistêmica, com causas genéticas, hormonais, metabólicas e endócrinas, envolvendo múltiplos tecidos.
A confusão começa pela expressão “cisto”. No ultrassom, não aparecem cistos tumorais, mas folículos que não se desenvolveram para liberar o óvulo. A SOMP, na prática, envolve falhas ovulatórias associadas a alterações metabólicas e hormonais.
Essa leitura mais ampla revela que a condição não se reduz a uma imagem. Alterações metabólicas, risco cardiovascular e impactos dermatológicos e mentais passam a fazer parte do diagnóstico, antes subestimados pela nomenclatura antiga.
O diagnóstico segue as diretrizes internacionais de 2023. Adultas com 20 anos ou mais precisam de pelo menos dois de três critérios: menstruação irregular, aumento de androgênios ou alterações de imagem/hormônios. O AMH elevado também é aceito.
Para adolescentes, os critérios são mais restritos. O ultrassom e o AMH não entram na avaliação inicial, já que os ovários jovens tendem a apresentar ativa foliculogênese. Nessa faixa, o acompanhamento é feito até maturidade hormonal.
O peso metabólico e hormonal é destacado pela nova nomenclatura. A SOMP envolve insulina, testosterona e AMH entre os hormônios implicados, configurando uma condição poliendócrina. A resistência à insulina ocorre em grande parte das pessoas afetadas.
Em termos de saúde cardiovascular, o consenso aponta risco aumentado de diabetes, pré-diabetes e dislipidemia, mesmo com peso estável. O manejo é individualizado, com ênfase em alimentação, atividade física e, quando necessário, intervenção endocrinológica.
O tratamento permanece orientado pela gravidade dos sintomas. A pílula combinada pode controlar sinais de excesso de hormônios masculinos e proteger o endométrio, mas não é obrigatório. Casos com alterações metabólicas costumam exigir abordagem integrada.
Segundo Gabriela Pravatta, a mudança ajuda a reduzir diagnósticos imprecisos. Ela destaca que muitos profissionais ainda se guiam pelo ultrassom, o que pode atrasar ou distorcer a identificação da SOMP. A atualização visa diagnóstico mais abrangente.
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