- Estudo publicado em 20 de fevereiro na revista PLOS Neglected Tropical Diseases mostrou o vírus Sabiá, que circula no Brasil há cerca de 142 anos e pode ser fatal.
- As mutações acumuladas ao longo das décadas alteraram regiões usadas pelos testes diagnósticos, levando à necessidade de redesenhar primers e criar novos marcadores.
- Os genomas analisados apresentaram cerca de 89% de identidade com cepas anteriores, com mudanças em proteínas ligantes às células que explicam falhas de detecção.
- Dois casos fatais, ocorridos em São Paulo em 2019 e 2020, foram identificados retroativamente por meio de abordagem metagenômica em amostras de pacientes com síndrome hemorrágica aguda.
- O estudo ressalta a importância da vigilância genômica e de biossegurança, já que o vírus pode ter transmissão por aerossóis em ambientes de laboratório, e o reservatório natural permanece em investigação.
O vírus Sabiá, um arenavírus extremamente raro, circula no Brasil há cerca de 142 anos e tem mutado de modo a comprometer a detecção por testes diagnósticos. A constatação vem de um estudo publicado em 20 de fevereiro na revista PLOS Neglected Tropical Diseases.
A pesquisa envolveu cientistas da Faculdade de Medicina da USP e do Imperial College London. Ela se debruçou sobre dois casos fatais ocorridos em São Paulo, em 2019 e 2020, que apresentaram síndrome hemorrágica e neurológica aguda. Os pacientes morreram após a inequivocamente confundida etiologia com febre amarela.
Os casos de 2019 e 2020 não foram detectados pelos testes padrão, o que levou à revisão das amostras. A equipe redesenhou primers e criou novos marcadores genéticos para identificar as cepas circulantes do Sabiá. O material genético analisado mostrou cerca de 89% de identidade com as cepas conhecidas.
A identificação de mutações ocorreu justamente nas regiões-alvo dos testes existentes, o que explica por que exames anteriores falharam em detectar o vírus. Segundo os autores, as alterações genéticas acumuladas ao longo das décadas impactam a performance diagnóstica dos testes.
Detecção e implicações técnicas
O estudo destaca que a detecção só foi possível graças a uma abordagem metagenômica, capaz de identificar múltiplos microrganismos em uma amostra sem hipótese prévia de o que está procurando. O caso de 2020 ocorreu em Sorocaba, onde o paciente acessava áreas com contato com ambientes florestais.
Outro caso relevante foi registrado em Assis, em dezembro de 2019, de um homem rural de 63 anos que faleceu dois dias após a internação. Em ambas as ocorrências, alterações em proteínas usadas pelo vírus para se ligar às células humanas foram observadas, contribuindo para a evasão diagnóstica e para a compreensão da evolução do patógeno.
A partir das análises, os pesquisadores reconstruíram a trajetória evolutiva do Sabiá por meio de filogenia. O estudo sugere que o vírus já circula no território brasileiro desde o fim do século XIX, antes de sua identificação formal.
Sobre o vírus e seus impactos
A equipe ressalta que, embora o vírus seja considerado extremamente raro, ele figura entre os mais perigosos em ambientes laboratoriais. Há risco de transmissão por aerossóis durante manuseio, o que exige biossegurança de alto nível, ainda ausente na maior parte da América do Sul.
A questão de qual animal atua como reservatório natural permanece em estudo, com roedores silvestres entre os principais suspeitos. Os casos ocorreram em áreas rurais ou com forte interlocução entre humanos e ambientes florestais, reforçando a necessidade de vigilância genômica contínua para monitorar possíveis surtos.
Entre na conversa da comunidade