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Moradores de rua em Ribeirão Preto não fizeram exame de visão

Mais de um terço de pessoas em situação de rua em Ribeirão Preto nunca fez exame de vista, revelando barreiras estruturais ao acesso ocular

Uma pessoa está sentada no chão usando um gorro azul e roupas em tons escuros. As mãos da pessoa estão estendidas para frente, abertas, como se estivesse pedindo algo. Ao lado dela, aparece um pedaço de papelão com escrita feita à mão, sugerindo um pedido de ajuda.
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  • Mais de um terço da população em situação de rua de Ribeirão Preto nunca fez exame de vista, e parte significativa não recebia avaliação há mais de cinco anos.
  • O estudo Hopes (Homelessness in Ribeirão Preto Eye Study) é da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e buscou dados mais inclusivos sobre dificuldades de acesso ao cuidado ocular.
  • Participaram 518 pessoas; 491 aceitaram, e 461 concluíram todas as etapas dos exames oftalmológicos realizados em abrigos, centros de apoio municipais e instituições parceiras.
  • Barreiras vão além da oferta de serviços: falta de documentos, mobilidade, estigmas, prioridades de sobrevivência e acesso complexo ao sistema de saúde comprometem o cuidado ocular.
  • A entrega imediata de óculos e a adaptação da organização do cuidado são consideradas estratégias-chave para reduzir desigualdades e ampliar o acesso à saúde ocular nessa população.

Mais de um terço da população em situação de rua de Ribeirão Preto nunca fez exame de vista, aponta estudo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. A pesquisa mostrou que há barreiras que vão além da oferta de serviços, incluindo documentação, acesso, estigma e prioridades de sobrevivência. O trabalho adaptou métodos para alcançar esse grupo historicamente invisível nas estatísticas.

O estudo, batizado Hopes (Homelessness in Ribeirão Preto Eye Study), avaliou saúde ocular de pessoas em situação de rua na cidade. Segundo o principal autor, o professor João Marcello Fortes Furtado, pesquisas tradicionais dependem de domicílios e endereços fixos, o que exclui esse público.

Exames oftalmológicos em abrigos e instituições parceiras

Ao todo, 518 pessoas foram convidadas, 491 aceitaram e 461 concluíram as etapas. Os exames foram realizados em abrigos, centros de apoio municipais e instituições parceiras, sem coletas diretas em ruas. Equipamentos portáteis permitiram avaliação visual, refração, pressão intraocular, biomicroscopia, fundo de olho e retina.

A logística envolveu visitas repetidas e coordenação com equipes locais, mantendo a qualidade técnica sem depender de retorno posterior. A entrega de óculos gratuitos ocorreu no ato, para quem precisava. Casos graves foram encaminhados ao SUS.

Vulnerabilidade social e acesso à saúde ocular

A amostra foi majoritariamente masculina (84,8%) e entre 40 e 59 anos (51,0%). Quase metade estava em rua há até um ano (47,5%). A escolaridade TVD foi de até oito anos para 55,7%. Ter feito exame oftalmológico já havia acontecido para 33,8%, e 33,2% citaram o último exame há mais de cinco anos.

Mesmo com infraestrutura na cidade, o acesso permaneceu limitado. A maioria reconheceu que a simples existência de serviços não garante atendimento efetivo para quem vive em vulnerabilidade. O estudo aponta ainda que a mobilidade alta reduz a continuidade do cuidado, tornando a entrega imediata de óculos mais eficaz do que modelos que requerem reencontro.

Resultados e perspectivas

O estudo sugere que ampliar o acesso à saúde ocular envolve mais do que oferecer consultas. Barreiras como falta de documentos, estigma e dificuldade de navegação reduzem a prevenção, o diagnóstico e o tratamento em tempo oportuno. proximidade de serviços não equivale a acesso efetivo.

O estudo abre caminho para novas análises sobre deficiência visual, cegueira, fatores de risco e qualidade de vida relacionada à visão nessa população. Dados podem contribuir para indicadores internacionais da OMS sobre cobertura de serviços oftalmológicos e orientar estratégias de melhoria.

Fontes e contatos

A pesquisa The homelessness in Ribeirão Preto Eye Study (HOPES) está publicada na ScienceDirect. Informações adicionais podem ser obtidas com João Marcello Furtado pelo email furtadojm@fmrp.usp.br.

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