- A multiômica combina DNA, RNA, proteínas e metabolismo para refinar diagnóstico e tratamento do câncer, oferecendo leitura integrada do tumor e da resposta a terapias.
- Entre as áreas ômicas, genômica e transcriptômica costumam ser o ponto de partida, enquanto proteômica, metabolômica, lipidômica e epigenômica revelam funcionamento celular e vias de tumor.
- Pesquisas em gliomas, câncer de pulmão e mama mostram que a leitura combinada dessas camadas pode identificar subtipos moleculares e orientar estratégias terapêuticas, incluindo imunoterapia.
- Os principais entraves são o custo elevado, a padronização de dados entre plataformas e a harmonização de resultados, dificultando a adoção no Sistema Único de Saúde e a prática clínica ampla.
- Estudos recentes destacam desigualdades de representatividade populacional em bancos de dados biomédicos, reforçando a necessidade de ampliar amostras diversas para melhorar diagnóstico e tratamento.
A multiômica reúne DNA, RNA, proteínas e metabolismo para refinar diagnósticos e tratamentos do câncer. A abordagem não se limita a alterações genéticas, mas analisa como elas se organizam e respondem às terapias. O objetivo é entender o tumor em diferentes níveis.
Segundo especialistas, essa leitura integrada permite acompanhar células tumorais, inflamatórias, fibroblásticas e as normais que convivem com o câncer. Com isso, é possível prever desfechos de tratamentos-alvo e imunoterapia com maior precisão.
A genética costuma ser o ponto de partida, identificando mutações no DNA. A transcriptômica avalia o RNA ativo, enquanto a proteômica analisa as proteínas executoras. A metabolômica e a lipidômica mostram como o tumor consome energia e recursos. A epigenômica investiga ligações entre genes sem alterações no DNA.
A leitura multiômica é descrita como uma forma de entender o que ocorre no tumor acessando informações em várias camadas. A professora Tathiane Maistro Malta compara o processo a ler diferentes livros sobre o mesmo tema, para obter um retrato mais completo.
A oncologia de precisão integra dados moleculares para orientar diagnóstico, prognóstico e escolha terapêutica. Estudos indicam que a análise de perfil molecular tem ganhado espaço, combinada a IA e biópsias líquidas, para prever resistência a fármacos e personalizar estratégias.
A aplicação prática já beneficia o diagnóstico em especialidades como gliomas, câncer de pulmão, mama e leucemias. Pesquisas indicam que a multiômica pode melhorar a estratificação de pacientes e indicar vias terapêuticas específicas, além de apoiar decisões diagnósticas.
Desafio de integração e padronização
Apesar do ganho de informações, integrar dados de várias camadas permanece complexo. Modelos computacionais ajudam a cruzar informações biológicas, ampliando a capacidade de prever desfechos clínicos e identificar resistência a tratamentos.
A transcriptômica espacial, publicada em 2024, preserva a posição das células no tecido, permitindo entender o microambiente tumoral e as interações com células imunes, o que pode impactar metástases e resposta a imunoterapia.
Entretanto, a diversidade de tecnologias gera variações entre leituras de diferentes plataformas. A harmonização de dados e resultados é um entrave para aplicações clínicas consistentes, segundo especialistas.
Custo ainda é barreira
No Brasil, o principal impedimento é o custo elevado das tecnologias multiômicas, tanto para pesquisa quanto para uso no SUS. A viabilidade financeira é apontada como o maior obstáculo para implementação ampla.
Relatórios internacionais indicam variação na adoção da oncologia de precisão entre países e dentro dos sistemas de saúde, com maior presença em centros de alta renda. A capacitação de profissionais também é necessária para evitar uso inadequado.
Estudos recentes destacam a necessidade de diversidade em bancos de dados biomédicos. A baixa representatividade de populações não europeias e norte-americanas pode limitar a precisão de diagnósticos e a eficácia de tratamentos para pacientes de origem diversa.
No Brasil, há iniciativas em centros como o Einstein para aplicar multiômica em tumores como pâncreas, pulmão, gliomas e mieloma. O foco é entender a biologia tumoral com a construção de biobancos padronizados para estudo e eventual uso clínico.
Pontos-chave
- Multiômica combina camadas moleculares para diagnóstico e tratamento mais precisos.
- Desafios incluem padronização de dados, custo e formação de profissionais.
- Evidência sugere potencial de melhorar estratificação, prognóstico e respostas terapêuticas.
- Avanços já influenciam diagnóstico, com expectativa de maior integração clínica no futuro.
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