- Cientistas decifram comunicações de ratos-listrados africanos no Karoo, com 122.619 guinchos gravados em 12 dias usando 23 microfones, revelando assinaturas vocais de cada ninho e de cada indivíduo.
- Ao treinar uma rede neural com os dados, os pesquisadores mostraram que os ratos dão mais atenção a vocalizações de vizinhos e reagem com surpresa a estranhos no ninho.
- O estudo integra os finalistas do Prêmio Dolittle, que concede US$ 100 mil para avanços na decifração da comunicação animal e mira alcançar comunicação bidirecional entre humanos e animais.
- Pesquisas sobre chimpanzés, bonobos e tentilhões-zebra citadas no texto sugerem uso de combinações de vocalizações, apontando possível sintaxe rudimentar em espécies não humanas.
- Especialistas discutem implicações éticas e práticas da comunicação interespécies, ressaltando que, mesmo com IA, a comunicação bidirecional ainda enfrenta desafios e impactos no bem-estar animal.
No Karoo, região semidesértica da África do Sul, pesquisadores gravaram guinchos de ratos-listrados africanos para entender padrões de comunicação. O estudo usa IA para decifrar vocalizações em campo, em ambiente natural.
Observando o comportamento do rato quando ouve guinchos de vizinhos, os cientistas notaram respostas de atenção e surpresa, dependendo de quem emite a vocalização. O objetivo é mapear sinais relevantes no mundo animal.
A pesquisa, liderada por Nicolas Mathevon, da Universidade de Saint-Étienne, marca a primeira decodificação de sons de ratos na natureza. Os resultados indicam que indivíduos reconhecem vozes de contatos próximos com maior sensibilidade.
Em 2023, a equipe gravou 122.619 guinchos de dezenas de ratos em quatro arbustos vizinhos aos ninhos, ao longo de 12 dias. Ao todo, foram identificados pelo menos sete tipos de guinchos na espécie.
A partir dos dados, os pesquisadores treinaram uma rede neural para detectar assinaturas vocais por ninho e por indivíduo. A técnica permitiu confirmar que cada ninho tem uma assinatura vocal estável ao longo do tempo.
Decifrando a comunicação entre espécies
O estudo dos ratos integra um conjunto de pesquisas que também investiga chimpanzés, bonobos, tentilhões-zebra e cachalotes. A equipe utiliza IA para classificar vocalizações e explorar possíveis significados contextuais das chamadas.
Entre os avanços, destaca-se a percepção de que vocalizações combinadas podem criar novos significados, sugerindo formas primitivas de sintaxe em primatas. Em chimpanzés, por exemplo, combinações de sons podem indicar ações futuras.
As pesquisas em bonobos mostraram que pares de vocalizações podem ter significados contextuais distintos, como indicar tensões sociais ou pedidos de reconciliação. O uso de IA acelerou a categorização de grandes volumes de dados.
A pesquisadora Mélissa Berthet analisou vocalizações de bonobos na República Democrática do Congo, para mapear combinações de chamados que ampliam possibilidades de comunicação entre indivíduos.
Catherine Crockford, de Lyon, destacou que combinações de vocalizações em chimpanzés podem alterar o significado de um chamado, abrindo caminho para compreensões mais profundas da linguagem dos primatas.
Limites, ética e perspectivas
Especialistas apontam que, mesmo com avanços, a comunicação bidirecional entre humanos e animais ainda é incerta e envolve riscos éticos. Pesquisadores alertam para impactos sobre o comportamento natural dos animais estudados.
O Prêmio Dolittle, que premia avanços na decifração da comunicação animal, está entre as iniciativas que discutem tais impactos. O vencedor de 2025 deverá demonstrar resultados significativos na comunicação entre espécies.
Alguns participantes ressaltam a necessidade de cautela para evitar efeitos negativos, como distúrbios sociais em grupos de animais. Pesquisadores da Harvard e outras instituições enfatizam a importância de proteger o bem-estar animal.
Outros especialistas veem um futuro com benefícios potencialmente relevantes, como melhor compreensão do bem-estar de animais de fazenda e de laboratório, com possíveis aplicações em manejo sem procedimentos invasivos.
Perspectivas futuras
O estudo com tentilhões-zebra em cativeiro indica que aves também podem aprender a associar vocalizações a recompensas, sugerindo que espécies diferentes compartilham mecanismos de processamento de som. A pesquisa avança na tentativa de mapear significados de sons.
Para investigadores como Mathevon, compreender a linguagem animal, mesmo que não leve à fala bilateral, oferece insights sobre o mundo não humano e pode fundamentar estratégias de conservação. A curiosidade científica, ao menos por ora, permanece em alta.
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