- O devaneio excessivo é uma condição em que a pessoa passa grande parte do tempo acordada criando fantasias elaboradas, que às vezes duram horas e podem se estender por décadas.
- Acredita-se que afete entre dois e quatro por cento da população adulta; não é sempre problemático, mas pode causar sofrimento, isolamento social e prejuízo cotidiano.
- Pesquisas associam o quadro a traumas de infância e a traços de neurodiversidade, como transtorno do espectro autista, TDAH, TOC, depressão e ansiedade, funcionando às vezes como uma estratégia de sobrevivência para lidar com emoções.
- O tratamento ainda não é padronizado, mas evidências iniciais sugerem que psicoterapia direcionada pode ajudar a tratar gatilhos, a imersão compulsiva, o controle da atenção e a regulação emocional, buscando retornar a escolha sobre a imaginação.
- Estratégias iniciais para quem sofre com o devaneio incluem registrar os sonhos diurnos, praticar mindfulness, conhecer os gatilhos (ex.: reduzir música ou ficar menos tempo sozinho) e buscar atividades que ocupem o tempo de forma saudável.
O devaneio excessivo, conhecido como maladaptive daydreaming, é o tema central de uma reportagem que reúne relatos de pacientes, especialistas e evidências clínicas. Pessoas com essa condição passam grande parte do tempo acordadas em fantasias elaboradas, com impacto significativo na vida cotidiana.
Segundo o psiquiatra Colin Ross, casos extremos envolvem sonhos acordados por até 12 horas diárias, com roteiros que podem se estender por décadas. Entre os relatos, destaca-se o de Kyla Borcherds, que descreve a transformação de fantasias em uma compulsão que ocupava horas do dia.
Pesquisadores estimam que a condição afete entre 2% e 4% da população adulta, segundo Ross. O quadro pode provocar sofrimento, isolamento social e dificuldades de regulação emocional, especialmente quando as fantasias passam a dominar a vida.
Entre as causas associadas, estudos apontam traumas de infância, negligência e problemas de apego. Em pessoas com neurodivergência, como o autismo, a prevalência pode ser maior, com relatos de solidão e estratégias de enfrentamento a partir da imaginação.
Apesar de não haver consenso sobre reconhecimento clínico, especialistas defendem a existência de um conjunto de sintomas que pode exigir abordagem terapêutica. A ideia é restaurar a escolha e o controle sobre a imaginação, sem eliminar a fantasia, mas tornando-a saudável para a vida real.
Casos ilustrativos incluem Maria, que, ao perceber que o devaneio excessivo prejudicava estudos na infância, encontrou no acompanhamento terapêutico um caminho para canalizar a imaginação. Em outros relatos, a prática diária de atividades criativas, como escrita, ajudou a reduzir a compulsão.
O tratamento ainda não possui diretrizes baseadas em grandes amostras, pois a condição não é amplamente reconhecida em manuais diagnósticos. Pesquisas iniciais sugerem que psicoterapia orientada aos gatilhos, à imersão e à regulação emocional pode oferecer benefícios.
Entre estratégias de autogestão, especialistas recomendam registrar os episódios de devaneio, procurar atividades substitutivas e usar técnicas de atenção plena. Em alguns casos, familiares e ambientes estáveis ajudam a reduzir a influência das fantasias no cotidiano.
Estudos também associam o devaneio excessivo a transtornos como TDAH, TOC, depressão e ansiedade. No entanto, a compreensão atual indica que a condição possui uma fenomenologia própria, distinta de outros transtornos, com aspectos de experiência consciente e dissociação.
Casos comorbidades podem complicar o quadro. A sobreposição com sintomas de hiperatividade ou intrusão de fantasias pode exigir abordagens diferenciadas, segundo especialistas. O objetivo terapêutico costuma ser ampliar a flexibilidade mental, não eliminar a imaginação.
Para quem vive com a condição, há iniciativas de apoio, como comunidades on-line que reúnem milhares de participantes. Nesses espaços, usuários discutem estratégias de convivência e contam histórias de transformação, como a transição da fantasia para produção criativa.
A reportagem ressalta que o tema está em estudo e requer atenção clínica contínua. Pesquisadores reiteram a necessidade de mais evidências para orientar diagnóstico e tratamento de forma consistente, respeitando a individualidade de cada caso.
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