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Nova pesquisa explica por que os bicho-preguiça são tão lentos

DNA das preguiças identifica genes saltadores ligados às mitocôndrias, apontando mecanismos de metabolismo lento com potencial impacto na medicina e em viagens espaciais

A preguiça-de-dois-dedos tem comprimento de cabeça e corpo de 54–88 cm, uma cauda curta de 1–3,3 cm e peso entre 4 e 11 kg. É a maior espécie de preguiça existente na atualidade — Foto: Wikimedia Commons
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  • Pesquisadores identificaram alterações genéticas exclusivas no DNA de preguiças que ajudam a explicar o metabolismo naturalmente mais lento dessas espécies, incluindo o bicho-preguiça-de-dois-dedos (*Choloepus didactylus*).
  • O estudo, publicado na revista BMC Biology, analisou o genoma da preguiça e revelou milhares de sequências antigas preservadas ao longo da evolução, ligadas ao consumo reduzido de energia.
  • Um destaque são os chamados genes saltadores (transposons), com atividade intensa ao longo da evolução e presença marcante no ancestral das preguiças, incorporando essas sequências ao funcionamento celular.
  • As sequências associadas às mitocôndrias e vias metabólicas podem explicar como o metabolismo fica extremamente lento, com energia gerada e gasta de forma diferente dos mamíferos de porte similar.
  • Os cientistas acreditam que as descobertas possam subsidiar pesquisas em envelhecimento, doenças metabólicas e aplicações médicas, incluindo cenários de viagens espaciais de longa duração, além de usos em medicina e conservação.

Os bicho-preguiça apresenta movimentos lentos, e uma nova pesquisa aponta que o DNA pode explicar esse comportamento. O estudo, publicado na revista BMC Biology, analisa o genoma de uma preguiça-de-dois-dedos e identifica alterações genéticas ligadas a um metabolismo mais lento. Navio internacional de pesquisadores, incluindo equipes do Brasil, sequenciou o genoma da espécie Choloepus didactylus. O achado revela milhares de sequências antigas preservadas ao longo de milhões de anos, associadas ao baixo consumo de energia da espécie.

Os cientistas destacam que as preguiças gastam menos energia que mamíferos de porte semelhante, e que a variação da temperatura corporal em resposta ao ambiente contribui para esse equilíbrio energético. A comparação incluiu tatus e tamanduás, parentes dentro do grupo Xenarthra, mostrando um padrão evolutivo único para o metabolismo lento.

Genes saltadores

A principal descoberta envolve os transposons, também chamados genes saltadores, que podem copiar-se e inserir-se em diferentes regiões do genoma. Em preguiças, esses elementos mostraram intensa atividade ao longo da evolução. A análise indica uma expansão nesses transposons no ancestral comum das preguiças, cerca de 30 milhões de anos atrás.

Essas sequências foram preservadas e passaram a integrar o patrimônio genético do grupo. Entre Xenarthra, a presença é especialmente alta, com cópias recentes em termos evolutivos. Os pesquisadores apontam que muitas dessas sequências foram incorporadas ao funcionamento normal do organismo, num processo conhecido como domesticação genética.

Relação com mitocôndrias e metabolismo

Os genes ligados aos transposons aparecem ligados às mitocôndrias, as usinas de energia celular, e a vias metabólicas que controlam a energia produzida e consumida pelo organismo. A equipe acredita que essas alterações contribuíram para o metabolismo extremamente lento das preguiças.

Cerca de dezenas de genes apresentam sinais de ganho de função ao longo da evolução, com origem em genes ancestrais envolvidos na produção e gestão de energia. A pesquisadora sênior Marcela Uliano-Silva ressalta que soluções biológicas encontradas em espécies incomuns podem trazer avanços para a biomedicina humana.

Metabolismo lento e saúde

Os resultados ajudam a entender como um metabolismo reduzido não compromete a saúde ao longo da vida. A geneticista Camila Mazzoni aponta que mecanismos compensatórios evoluíram nas preguiças, mantendo o bem-estar mesmo com mitocôndrias menos ativas. Esses sistemas de reserva genéticos seriam parte da explicação.

Os cientistas indicam que entender esse equilíbrio pode oferecer insights sobre gerenciamento de energia celular em humanos. As pesquisas devem prosseguir com culturas celulares e sequenciamento de células individuais para detalhar o efeito das alterações genéticas no metabolismo.

Implicações para a medicina e a biologia

Além de esclarecer a biologia das preguiças, os pesquisadores sugerem aplicações potenciais para doenças humanas ligadas à produção de energia celular, como diabetes, neurodegeneração e envelhecimento muscular. A ideia é usar preguiças como modelo natural para estudar ambientes de baixa disponibilidade de energia.

Segundo especialistas, a longo prazo, os achados podem orientar estratégias de conservação de tecidos, medicina intensiva e estudos sobre envelhecimento. Pesquisadores do Hospital Sírio-Libanês, no Brasil, destacam a necessidade de confirmar as possibilidades com mais investigações.

Próximos passos

Os cientistas planejam aprofundar a função desses genes em experimentos com culturas celulares e técnicas de sequenciamento de células únicas. O objetivo é entender como as alterações genéticas influenciam o metabolismo das preguiças e quais mecanismos sustentam a vida com baixa energia.

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