- Pesquisadores brasileiros e finlandeses mapearam quase mil estradas antigas no Acre, totalizando cerca de 350 quilômetros de extensão, ligando povos, rios e geoglifos.
- As vias, planejadas de forma retilínea e muitas alinhadas a pontos cardeais, parecem ter tido diferentes funções ao longo do tempo, incluindo ligação entre povoados e grandes terreiros cerimoniais.
- O estudo, publicado no periódico Antiquity, aponta que parte das estradas está associada a geóglifos e a estruturas de terra escalonada, com terreiros cerimoniais possivelmente usados em festividades.
- A maior parte das vias é estreita ou larga (mais de quinze metros entre acostamentos), com trajetos principalmente retos, sugerindo uso de conhecimentos astronômicos para orientação.
- Entre 40% das estradas levam à beira de rios, enquanto 10% terminam em geóglifos ou grandes estruturas; quase metade não apresenta ponto de chegada óbvio, e especialistas aguardam o uso de tecnologia LiDAR para revelar conexões adicionais.
Foi mapeada uma rede de quase mil estradas antigas no Acre, com extensão estimada em cerca de 350 km. As vias foram criadas por grupos indígenas locais séculos antes da chegada dos europeus, ligando povos a rios e a monumentos no solo.
A pesquisa envolve cientistas brasileiros e finlandeses, com participação de Antonia Damasceno Barbosa do Iphan. O estudo foi publicado em Antiquity, em abril deste ano. A equipe também contou com especialistas da Universidade de Turku e de Helsinque.
Os trabalhos combinaram imagens de satélite e validação de campo, cobrindo uma faixa de 135 mil km² no território acreano. No eixo central, surgem grandes desenhos geométricos, chamados geóglifos, com valetas que podem ter centenas de metros.
Avanços na pesquisa
Os geóglifos aparecem com terreiros cerimoniais, indicados pela retirada de vegetação. A escassez de cerâmica doméstica sugere uso ritual em vez de ocupação residencial. Desenhos variam entre quadrados, círculos e losangos, delimitados por muretas de terra.
Os pesquisadores apontam que muitas vias são largas, com mais de 15 m entre acostamentos, e outras são mais estreitas. A maioria dos caminhos é retinha, alinhada a pontos cardeais, sugerindo orientação astronômica antiga.
Metodologia e desdobramentos
Caminhos curtos predominam, embora existam trechos de até 5,5 km. Em alguns casos, séries de estradas conectam povoados a até 30 km de distância, possivelmente ligando áreas de aldeias a recursos da mata.
Cerca de 40% das estradas conduzem às margens dos rios, com destaque para a região de Boca do Acre, onde o Acre deságua no Purus. Outros 10% terminam em geóglifos ou grandes estruturas de terra batida.
Contexto histórico e perspectivas
Observa-se uma mudança de ocupação a partir do século 13 d.C., com surgimento de mounds — morros artificiais que serviam como núcleo das aldeias. A hipótese é de que as estradas também evidenciam redes de circulação ritual e econômica.
Quase metade das vias não tem ponto de chegada óbvio, sugerindo usos variados, como acesso a áreas de cultivo ou recursos naturais na mata. Pesquisadores ressaltam que novas informações devem surgir com o uso de tecnologia Lidar.
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