- Bactérias oxidantes de enxofre teriam ajudado a fossilização do pterossauro de Anhangueridae encontrado na Bacia do Araripe, Ceará, há cerca de 113 milhões de anos.
- O processo envolveu decomposição de tecidos moles e liberação de químicos que, com a ação dessas bactérias, formaram cristais de sulfato de bário e sulfato de estrôncio perto dos ossos.
- A precipitação de carbonato de cálcio ao redor e entre os poros dos ossos permitiu a preservação de estruturas microscópicas e ergueu um nódulo calcário típico da Formação Romualdo.
- O estudo mostrou a preservação de esteroides nos ossos, um feito inédito em répteis alados, além de assinaturas isotópicas que sugerem alimentação de peixes.
- Os pesquisadores destacam que esse mecanismo pode ter ocorrido em outros depósitos ao longo da história geológica e sugerem ampliar as escavações e integrar paleontologia, geoquímica e biologia molecular.
Uma pesquisa internacional liderada por cientistas do Brasil, Austrália, Alemanha e Estados Unidos revelou um novo mecanismo de fossilização. O estudo, publicado na revista iScience, descreve como bactérias oxidantes de enxofre ajudaram a preservar um pterossauro de 113 milhões de anos. O fóssil foi encontrado em 2012 na Bacia do Araripe, no Ceará.
A descoberta mostra que microrganismos atuaram na decomposição da matéria orgânica, desencadeando reações químicas que selaram partes do organismo antes da sua total decomposição. Estruturas microscópicas e vestígios de esteroides foram preservados, ampliando o conhecimento sobre fossilização de tecidos moles.
O pterossauro pertence à família Anhangueridae, répteis alados do Cretáceo. A área da Chapada do Araripe, na região, era formada por lagunas costeiras há cerca de 113 milhões de anos. O animal pode ter morrido e permanecido flutuando antes de uma asa se desprender e afundar em ambiente de baixo oxigênio.
Revelações inéditas
Na prática, o processo preservou moléculas extremamente frágeis, incluindo esteroides nos ossos do pterossauro. A análise isotópica dos fósseis indicou assinaturas ligadas à alimentação do animal, sugerindo que os anhanguerídeos teriam se alimentado de peixes.
Os autores destacam que o achado pode indicar mecanismos semelhantes em outros depósitos fósseis. Comparações com a Alemanha e os Estados Unidos apontam indícios de processos de fossilização parecidos em diferentes épocas, o que pode exigir novas pesquisas para confirmar a aplicação global.
Laboratório natural brasileiro
A Bacia do Araripe é reconhecida como um dos maiores depósitos fossilíferos do mundo. Além de ossos e dentes, a região tem histórico de conservar microestruturas, tecidos moles e moléculas originais. A preservação está associada a condições ambientais e geológicas especiais da área.
Pesquisadores ressaltam que a combinação de água de baixa energia, baixa ocorrência de decompositores e minerais que precipitam ao redor dos restos favorece a preservação extraordinária observada. O resultado reforça a importância do território para a paleontologia.
Futuro da pesquisa
Os cientistas pretendem ampliar escavações na bacia sedimentar e integrar paleontologia, geoquímica e biologia molecular em novos estudos. O objetivo é compreender melhor a fisiologia, a alimentação e a adaptação ambiental de espécies do Cretáceo, especialmente em cenários de clima mais quente.
A equipe enfatiza que o trabalho envolve colaboração internacional entre 15 instituições. A cooperação permite o uso de técnicas avançadas para detectar sinais químicos preservados há milhões de anos, abrindo novas linhas de pesquisa sobre conservação de biomoléculas no registro fóssil.
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