- O testemunho CDH-79, recolhido na margem continental brasileira, na Bacia Pará-Maranhão, a 2.345 metros de profundidade, ajuda a entender a história climática da Amazônia nos últimos dois milhões de anos.
- O estudo foi liderado por Paul Baker e Cleverson Guizan, realizado com apoio do programa Ciência sem Fronteiras e publicado na revista Communications Earth & Environment.
- As análises indicam que a variabilidade hidroclimática da Amazônia foi mais dinâmica do que se pensava, com períodos glaciais associados a maior descarga sedimentar e a eventos extremamente úmidos, ligados a mudanças na circulação do Atlântico Norte.
- O depoimento de Allan Sandes, morador de favela no Rio de Janeiro, destaca que políticas públicas de acesso à universidade podem transformar trajetórias e ampliar quem produz ciência.
- O texto reforça que a ciência não é linear e que pessoas de periferia podem contribuir de forma relevante para o conhecimento climático global.
O geólogo Allan Sandes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), conecta evidências do fundo do mar com debates sobre quem pode fazer ciência. Em entrevista publicada pela The Conversation Brasil, ele discute como o acesso à educação transforma trajetórias e produção científica.
Sandes conta que, morando no Morro do MIC, em Niterói, sua vida foi impactada por políticas públicas que promovem a inclusão de estudantes socialmente vulneráveis em universidades públicas. A história dele ilustra a ideia de que a ciência não é linear nem exclusiva a determinados grupos.
O depoimento reforça a tese de que a produção científica envolve trajetórias diversas e que políticas públicas podem favorecer o acesso e a permanência de grupos historicamente marginalizados no ambiente acadêmico.
O testemunho sedimentar CDH-79, coletado na margem continental brasileira, na Bacia do Pará-Maranhão, a 2.345 metros de profundidade, é tema central. A expedição do navio oceanográfico R/V Knorr ocorreu em fevereiro de 2010 e teve orientação de Paul Baker e Cleverson Guizan.
O objetivo do projeto era entender a evolução climática e biogeográfica da América do Sul tropical ao longo do Quaternário. Entre os achados, o CDH-79 aparece como um registro paleoclimático excepcional de até dois milhões de anos.
Analises subsequentes com radiocarbono e isótopos de oxigênio mostraram que o testemunho representa uma das janelas mais longas sobre a história climática da Amazônia, desafiando ideias anteriores sobre períodos glaciais e regimes úmidos.
Os resultados, publicados na revista Communications Earth & Environment, apontam que a variabilidade hidroclimática da região foi mais dinâmica do que se pensava, com episódios úmidos intensos durante glaciais ligados a mudanças no Atlântico Norte.
A pesquisa releva que mudanças na circulação oceânica do Atlântico Norte influenciaram sistemas atmosféricos tropicais e os padrões de água na América do Sul, conectando a Amazônia a fenômenos globais.
O relato de Sandes aponta que a ciência também se constrói a partir de origens periféricas. A trajetória dele, inclusive, voltou à Duke University como professor e pesquisador, onde recebeu reconhecimentos nacionais, mantendo o foco em educação científica em escolas públicas periféricas.
A investigação da Amazônia, segundo o pesquisador, demonstra como o conhecimento avança quando se questiona o que parecia óbvio: quem pode produzir ciência e quais territórios geram saber de ponta.
O estudo do CDH-79, portanto, não apenas amplia o entendimento climático da região, mas também ilumina debates sobre inclusão e pertencimento na ciência, segundo Sandes. As informações são de fontes institucionalizadas e da revista científica citada.
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