- Estudo com mais de cem espécies de grilos do grupo Oecanthidae mostra que a capacidade de cantar e ouvir foi perdida várias vezes ao longo da evolução, em diferentes ramos da árvore genealógica.
- A redução ou ausência de estruturas sonoras ocorreu de forma repetida: asas estridulatórias, fileira estridulatória e harpa deixaram de existir em diversos casos, com canto e audição normalmente se correlacionando.
- Mudanças no habitat e a pressão de predadores podem ter levado grilos a ficarem silenciosos ao longo da evolução.
- Grilos que vivem nas copas das árvores tendem a manter o canto, enquanto espécies em ambientes mais abertos ou próximos a estradas podem reduzir ou silenciar o canto por causa do ruído.
- Em grilos de árvore, como Oecanthus pellucens, machos diminuem o tempo de canto e fazem mais pausas conforme o ruído de tráfego aumenta, evidenciando plasticidade comportamental ligada ao ambiente.
De acordo com um estudo publicado neste mês na Journal of Systematics and Evolution, pesquisadores brasileiros mapeiam a perda do canto de grilos ao longo da evolução. O trabalho foca no subgrupo Oecanthidae, com mais de 1.400 espécies, presentes no Brasil e no mundo.
A pesquisa, realizada pela USP e pelo Museu Nacional de História Natural da França, aponta que a capacidade de cantar e ouvir foi reduzida ou abolida várias vezes de forma independente. O estudo revela forte coordenação entre as estruturas das asas e os órgãos auditivos.
Os cientistas analisaram características anatômicas como a fileira estridulatória, a palheta, a harpa, o espelho e as veias associadas. Além disso, observaram que o som é produzido pela estridulação das asas dianteiras, não pela boca, e que o ouvido fica nas patas dianteiras.
Em mais de cem espécies, as perdas ocorrem repetidamente ao longo de milhões de anos. Asas ausentes ou muito curtas aparecem em várias linhagens, assim como a ausência da fileira estridulatória ou da harpa. Em geral, a perda do canto acompanha a da audição.
Algumas espécies passam a habitar ambientes com pouca possibilidade de comunicação sonora, como cavidades em madeira ou rochas, o que favorece a silenciosidade. Em áreas com vegetação densa, o canto também pode perder valor adaptativo.
Por outro lado, o canto persiste com mais força em grilos que fenotipicamente ocupam a copa das árvores, especialmente em florestas tropicais, onde o som se propaga com mais facilidade. O ruído urbano, no entanto, pode reduzir a emissão de cantos em espécies próximas a vias.
Campos comenta que certas populações próximas a estradas apresentam cantos menos frequentes, sugerindo habituação ao ruído. Em grilos de árvore, como Oecanthus pellucens, o tempo de canto diminui conforme aumentam as interrupções pelo tráfego, com maior incidência de pausas.
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