- Trabalhadores de uma fábrica de roupas na região de Gurgaon, perto de Delhi, passaram a vestir câmeras na cabeça sem explicação, o que virou motivo de preocupação com a vigilância da produtividade.
- As imagens geradas são usadas para criar dados egocêntricos, importantes para treinar robôs que podem substituir humanos na linha de produção.
- Empresas coletam esse tipo de dado com clientes como a Tesla entre os principais compradores, buscando ampliar o conjunto de dados para IA.
- Não há remuneração adicional direta aos trabalhadores pela geração desses dados; dizem que as fábricas já recebem compensação pela coleta, o que reduz o incentivo à participação.
- Além das fábricas, há recrutamento de trabalhadores informais, como pedreiros e entregadores, para gravar atividades, com pagamento feito por contrato e sem clareza sobre o uso final das imagens.
Lalita*, trabalhadora de confecção na periferia de Delhi, recebeu uma câmera frontal acoplada na cabeça por ordem da gerência no início de um turno. A equipe não recebeu explicação sobre o objetivo, apenas a instrução de usar o dispositivo durante a linha de produção.
O equipamento gravou o ritmo das mãos, o alinhamento de colarinhos e costuras, além de interações com colegas. Inicialmente houve risos entre as trabalhadoras, mas a curiosidade deu lugar à apreensão sobre monitoramento constante.
A prática faz parte de um movimento maior no país: coletar dados egocêntricos de fábricas para treinar robôs. As imagens ajudam a mapear movimentos humanos e comportamentos úteis para sistemas autônomos que podem substituir trabalhadores no futuro.
A empresa egocentric data assina como EgoLab, com atuação em Gurugram, Haryana, e clientes de peso como a Tesla. Estima-se que parte relevante do futuro valor da Tesla possa vir de robôs humanoides, não apenas de veículos elétricos.
Segundo análises, a Índia se consolidou como polo para coleta de esse tipo de dado, com diversas startups criando cadeias de fornecimento para robótica. Em pesquisa, especialistas destacam o papel único do país pela escala, diversidade e intensidade de mão de obra.
Ao registrar os movimentos, as empresas também realizam o processamento dos vídeos: correção de mãos, rastreamento de ações e separação de atividades do fundo. O país já domina cerca de 35% do mercado global de anotação de dados, com a maior parte da receita vindo de clientes dos EUA.
A remuneração direta aos trabalhadores pela geração desses datasets é questionada. Em muitos casos, as fábricas recebem compensação por facilitar as gravações, mas não pagam extra aos empregados. Críticos ressaltam que isso esconde quem produz o dado.
Um pesquisador afirma que a demanda por dados egocêntricos cresce e que a competição pressiona os custos para baixo, reduzindo o ganho dos trabalhadores. A resistência de donos de fábricas a pagamentos diretos é citada como prática comum.
Além do ambiente fabril, empresas passam a recrutar trabalhadores informais, como pedreiros, entregadores e vendedores, para registrar atividades diárias. Nesses casos, o pagamento costuma ocorrer por meio de contratos locais com as firmas de tecnologia.
Um trabalhador da construção, Munazir*, relata ganhos adicionais semanais que ajudam a complementar a renda. Ele afirma que tem pouca ideia de como os dados gerados serão utilizados, recebendo apenas a renda extra, sem pagamento específico pelo conjunto de dados.
Especialistas destacam a necessidade de discutir propriedade e remuneração, já que as bases de dados derivadas da atividade humana podem sustentar sistemas de IA globais. Há debates sobre royalties ou formatos de compartilhamento de valor que reconheçam a contribuição dos trabalhadores.
A história de Lalita encerra com a constatação de que o material gravado foi convertido em dados, agora limpos, anotados e usados por empresas de tecnologia. Ela questiona, de forma implícita, quem pagará sua geração enquanto robôs ocuparem o espaço de trabalho.
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