- Grupo de 16 mulheres ribeirinhas da comunidade São Domingos, no Oeste do Pará, produz óleos de andiroba para uso medicinal e cosmético desde 2016, com trabalho manual e liderança de três irmãs.
- A iniciativa quebra estereótipos de gênero na região e prepara a próxima geração, com Silvia Gabrielly, de 23 anos, assumindo funções de gestão e comunicação.
- Os óleos das Amélias da Amazônia também alimentam a Mahá Biocosméticos, criada por Melissa Karen Lage e Bruna de Souza durante a Ufopa, com apoio do programa Inova Amazônia desde 2021.
- A Mahá expande para todo o Brasil via parceria com o Bemol e produção terceirizada pela Ekilibre da Amazônia; alguns insumos ainda vêm de grandes centros, e há uso de embalagens biodegradáveis.
- O MuCA e a Oka Hub conectam ciência, inovação e saber tradicional, fortalecendo cadeias locais, pesquisa ambiental e o aproveitamento sustentável da floresta.
A comunidade São Domingos, na Floresta Nacional do Tapajós, Oeste do Pará, abriga o grupo de mulheres Amélias da Amazônia. Desde 2016, elas produzem óleos para fins medicinais e cosméticos, feitos de forma manual, respeitando o ritmo da natureza e os costumes locais.
A iniciativa reúne 16 pessoas, lideradas por três irmãs: Marileide, Marilene e Marcilene. O projeto nasceu da necessidade de renda extra para as famílias ribeirinhas e da valorização de saberes tradicionais transmitidos de geração em geração.
O trabalho começa com a coleta de sementes de andiroba, que após processo de higienização, cozimento, secagem e quebra leva cerca de três meses até o óleo final. Parte das sementes já era utilizada pela comunidade para remédios, mas o grupo decidiu transformar o recurso em produto comercial.
Biocosméticos
Hoje, além do óleo de andiroba, a linha inclui copaíba, sabonetes, velas, incensos, cremes e repelentes, todos com base em matérias-primas amazônicas. O dinheiro obtido já ajuda na educação dos filhos e na melhoria da renda familiar.
Silvia Gabrielly, 23 anos, filha de Marileide, é a próxima geração que assume o negócio. Ela atua como agente ambiental do ICMBio e administra as redes sociais das Amélias, com planos de ampliar estudos e trazer novas tecnologias à comunidade.
Da academia para o mercado
As Amélias mantêm parceria com a Mahá Biocosméticos, criada por Melissa Karen Lage e Bruna de Souza durante o curso na Ufopa. A marca foca em cosméticos capilares que valorizam ativos da Amazônia, com apoio do Inova Amazônia desde 2021.
Os óleos produzidos pelas Amélias servem como matéria-prima para a Mahá. O laboratório fica na Oka Hub, em Belterra, que reúne incubadora, laboratório e espaço de diálogo entre ciência e saber tradicional.
“As comunidades tradicionais agregam saberes valiosos, agora aliados à bioeconomia”, afirma o diretor técnico do Sebrae, Bruno Quick. A rede da Oka Hub conecta empresas a universidades e projetos como a Ufopa.
Ancestralidade e inovação
O MuCA, Museu de Ciência da Amazônia, integra ciência e educação ambiental com comunidades locais. Arthur Carvalho, responsável pela área educacional, destaca que todo o conhecimento científico hoje tem raízes no saber tradicional da região.
A Oka Hub utiliza espaços do MuCA para apoiar pesquisas e projetos de negócios regionais. Os planos incluem ampliar o apoio a 11 negócios já existentes na incubadora, fortalecendo cadeias produtivas locais.
Fordismo x Amazônismo
A reportagem destaca também a Vila Americana, antiga base de trabalhadores ligada à Ford na década de 1930, perto de Belterra. Casas de madeira, uma grande caixa d’água e uma história de exploração contrastam com a realidade atual de inovação indígena, ribeirinha e científica.
A visão atual da região valoriza a coexistência entre tradição e pesquisa. A rápida transformação é apresentada como exemplo de desenvolvimento sustentável, combinando saberes da floresta com a ciência institucionalizada.
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