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Biocosméticos unem ciência e tradições ribeirinhas no Oeste do Pará

Mulheres ribeirinhas do Oeste do Pará fortalecem a economia local com biocosméticos da Amazônia, unindo tradição e ciência para manter a floresta em pé

As irmãs Silva Monteiro, por trás da Amélias da Amazônia
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  • Amélias da Amazônia é um grupo de 16 mulheres ribeirinhas da comunidade São Domingos, na Floresta Nacional do Tapajós, que produz óleos e cosméticos desde dois mil dezesseis.
  • O processo é manual e leva em média três meses, desde a coleta das sementes de andiroba até a obtenção do óleo, seguindo tradições locais.
  • Além do óleo de andiroba, produzem sabonetes, velas, incensos, cremes e repelentes, com matéria-prima proveniente da região.
  • A herdeira Silvia Gabrielly, de vinte e três anos, alia atuação ambiental e gestão digital das Amélias, com planos de estudar para ampliar conhecimentos e expansão do negócio.
  • A Mahá Biocosméticos, criada por farmacêuticas, usa os óleos das Amélias como base, conectando ciência e tradição por meio da Oka Hub, incubadora em Belterra que une saberes locais e apoio institucional.

Do alto das árvores da região, as Amélias da Amazônia, grupo de mulheres ribeirinhas, produzem óleos para uso medicinal e cosmético desde 2016. O trabalho ocorre na comunidade São Domingos, dentro da Floresta Nacional do Tapajós, no Oeste do Pará, todo de forma manual e alinhado aos ritmos da mata.

A produção começa com a coleta de sementes de andiroba, que apresentam formato angular, textura semelhante à cortiça e cor de café. O processo envolve higienização, cozimento, secagem e quebra da semente, seguido da massa e decantação, com média de três meses até o produto final.

Marileide da Silva Monteiro explica que a técnica foi herdada de avós e pais. A ideia de transformar óleo em negócio surgiu após uma irmã sugerir venda, permitindo renda extra sem expor a família ao sol da roça. Hoje a cooperativa reúne 16 moradoras, lideradas por três irmãs.

A liderança feminina inspira o nome da marca e desafia estereótipos locais. Marilene Dias da Silva relembra o esforço para substituir a roça tradicional por um empreendimento que demanda tarefas pesadas, como manejo de machado e enxada, para preparar o espaço produtivo.

Além do óleo de andiroba, a linha inclui óleo de copaíba, sabonetes, velas, incensos, cremes e repelentes, todos com base em recursos amazônicos. O faturamento já ajuda a financiar educação e itens básicos para as famílias da comunidade.

Silvia Gabrielly, 23 anos, filha de Marileide, é a nova geração ligada ao negócio. Ela atua como agente ambiental no ICMBio e administra redes sociais das Amélias, com planos de ampliar estudos e trazer saberes tecnológicos para a comunidade.

Biocosméticos

Os óleos das Amélias servem de base para a Mahá Biocosméticos, criada por Melissa Karen Lage e Bruna de Souza na Ufopa. O foco inicial foi capilar, buscando soluções para cabelos cacheados com ativos da Amazônia e parceria com comunidades tradicionais.

Melissa destaca a transição da babosa para óleos amazônicos, como andiroba e castanha-do-pará, para ampliar a eficácia dos produtos. O fortalecimento de cadeias locais é parte do objetivo, segundo as empresárias.

O projeto atua com parcerias para reaproveitar resíduos da andiroba e reduzir impactos ambientais. Insumos como mentol, glicerina e fragrâncias ainda dependem de fornecedores de São Paulo ou do Rio, e embalagens são principalmente biodegradáveis.

A Mahá amplia a comercialização para todo o Brasil, com parceria com a Bemol e produção terceirizada pela Ekilibre da Amazônia, em Alter do Chão (PA). A empresa busca aumentar o volume de vendas e consolidar a presença regional.

Ancestralidade e inovação

O laboratório da Mahá fica na Oka Hub, incubadora de Belterra (PA) ligada à Colabora Lab e ao Sebrae. A iniciativa oferece infraestrutura, capacitação e conexões com Embrapii, Ufopa e comunidades tradicionais, promovendo integração entre saberes.

Bruno Quick, diretor técnico do Sebrae Nacional, ressalta o valor dos saberes tradicionais na bioeconomia, envolvendo povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos. A rede de apoio já assiste 11 negócios na Oka Hub.

A ideia é que tecnologia sirva de escala para saberes da floresta, gerando emprego e renda qualificada na região. Os organizadores defendem maior investimento e engajamento para ampliar impactos socioeconômicos.

História da região

Belterra guarda vestígios do passado fordista na Vila Americana, próxima à Oka Hub. Na década de 1930, a Ford pretendia cultivar seringueiras para latex, com uma vila administrativa para estrangeiros. A iniciativa não prosperou e ativos foram transferidos ao governo em 1945.

Hoje, a vila abriga órgãos públicos e moradores, sendo tombada pelo Iphan. A pesquisadora Venize Nazaré Ramos Rodrigues aponta o choque entre a lógica de produção em massa e os modos de vida amazônicos, que privilegiam a natureza e a cooperação.

Ciência na floresta

No presente, a modernidade na Amazônia passa pela integração entre tradição e ciência. O MuCA, Museu de Ciências da Amazônia, reúne pesquisas sobre biodiversidade e educação ambiental, fortalecendo vínculos com comunidades tradicionais.

Arthur Carvalho, responsável educativo do MuCA, destaca que conhecimento científico nasce do empírico e do saber local. A Oka Hub utiliza espaços do MuCA, conectando laboratórios a comunidades, para ampliar desenvolvimento.

As Amélias da Amazônia y Mahá Biocosméticos representam uma ponte entre saberes tradicionais e engenharia. A parceria busca manter a floresta em pé, ao mesmo tempo em que cria oportunidades econômicas na região.

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