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Nature Medicine aponta relação do horário de terapia contra câncer e sobrevida

Nature Medicine retrata falhas metodológicas em estudo sobre imunoterapia para câncer de pulmão que sugeria infusões matinais; resultados não confiáveis

Enfermeira prepara infusão para paciente em hospital
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  • A revista Nature Medicine retratou um estudo chinês que afirmava que infusões matinais de pembrolizumabe em câncer de pulmão dobravam o tempo de controle da doença e aumentavam a sobrevida em relação às infusões da tarde.
  • O estudo, com 210 pacientes no Hospital de Câncer de Hunan, sugeria 11 meses de controle de tumor pela manhã contra 6 meses à tarde e 28 meses de sobrevida pela manhã contra 17 meses à tarde.
  • A retratação apontou irregularidades na metodologia: alterações em registros que deveriam ter sido bloqueados, discrepâncias entre a versão chinesa e a traduza, e cronograma de exames incomum.
  • A revista afirmou que não confia mais na integridade dos resultados e que a participação de muitos autores era da China, com financiamentos do governo chinês.
  • Um dos autores reconheceu deficiências na execução e na preparação do manuscrito e solicitou desculpas; a edição acrescentou que investigaria as questões levantadas.

No início deste ano, estudo sugeriu que mudar o horário de infusão da imunoterapia poderia dobrar o tempo de controle da doença em câncer de pulmão. Pacientes recebendo o tratamento pela manhã teriam melhor resposta do que os que recebiam à tarde, segundo a pesquisa publicada na Nature Medicine.

O trabalho envolveu 210 pacientes com câncer de pulmão avançado no Hospital de Câncer de Hunan, em Changsha. Os voluntários foram randomizados para receber pembrolizumabe antes ou depois das 15h. Os autores afirmaram que o controle do tumor foi de 11 meses no grupo da manhã, frente a 6 meses no da tarde.

Os autores indicaram ainda sobrevida de 28 meses para o grupo matutino, contra 17 meses para o vespertino. Resultados que, segundo a equipe, pareciam indicar benefício similar aos de medicamentos inovadores. Essas informações ficaram sob escrutínio entre especialistas.

Vários oncologistas relataram, nos meses seguintes, um volume expressivo de ligações de pacientes interessados em antecipar infusões para o período da manhã. A expectativa gerou dúvidas sobre a viabilidade prática dessa mudança de horário na rotina clínica.

Retratação e questões metodológicas

Na semana passada, a Nature Medicine retratou o estudo, citando inconsistências na metodologia. Entre elas, alterações em registros que deveriam ter sido bloqueados e discrepâncias entre a versão chinesa e a traduzida do protocolo.

Outro ponto destacado é que todos os pacientes teriam continuado tratamento e acompanhamento no primeiro ano, o que é incomum em ensaios oncológicos. Padrões atípicos também foram observados no cronograma de exames de acompanhamento.

Os editores afirmaram que, devido à quantidade e natureza dos problemas, não confiam mais na integridade dos resultados. O artigo foi assinado por pesquisadores majoritariamente da China, com colaboradores na Europa, e teve financiamento estatal chinês.

Reações e próximos passos

O oncologista Toni Choueiri, do Dana-Farber Cancer Institute, que participou da revisão pós-publicação, disse que o estudo parecia “bom demais para ser verdade”. Pesquisadores adicionais destacaram a necessidade de replicação independente antes de qualquer mudança clínica.

Especialistas ressaltam que mudanças de protocolo devem passar por avaliações rigorosas, com confirmação em estudos adicionais antes de orientar práticas ambulatoriais generalizadas. O caso também reacende debates sobre padrões de pesquisa e integridade em trabalhos multicêntritos.

João Monteiro, editor-chefe da Nature Medicine, informou que a revista agradece a comunidade científica por apontar as questões e que a investigação continua. A retratação reforça a necessidade de verificação minuciosa de dados em pesquisas com alto impacto clínico.

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