- A indústria siderúrgica da Indonésia é uma das maiores emissores industriais do país e pode crescer muito caso continuem hoje as tendências, com produção em torno de 16,8 milhões de toneladas em 2023 e projeção de doze vezes mais até 2060, elevando as emissões 11,7 vezes nesse cenário.
- Cerca de 80% da produção usa o método BF-BOF, o mais carbonivo, enquanto apenas cerca de 20% é feito por EAF, que emite bem menos, dependendo da fonte de energia.
- Emissões da siderurgia podem representar cerca de 31% das emissões nacionais em 2060 se políticas atuais permanecerem, o que pode comprometer a meta de carbono zero.
- O governo lançou planos e regras, como o plano de desenvolvimento 2025-29, regulamentação de precificação de carbono e um roteiro de descarbonização industrial, mas AEER aponta falta de metas setoriais obrigatórias e mecanismos de fiscalização.
- O Ministério da Indústria afirma que está fortalecendo dados de emissões e reduções de intensidade e que, no futuro, pretende estabelecer limites setoriais, além de preparar exportadores para o CBAM da União Europeia, que pode onerar as exportações caso não haja monitoramento adequado.
A produção de aço na Indonésia aparece como uma das maiores fontes industriais de gases de efeito estufa, crescendo rapidamente sem a devida atenção pública. Um estudo da AEER (Action for Ecology and People’s Emancipation) aponta que o setor já é um dos emissores mais relevantes e pode piorar caso permaneçam as atuais tendências. O levantamento considera a demanda global por aço impulsionada por veículos elétricos, energia renovável e infraestrutura.
Em 2023, a produção de aço bruto da Indonésia ficou em cerca de 16,8 milhões de toneladas, tornando o país o 15º maior produtor mundial, segundo a World Steel Association. A AEER estima que a produção de aço possa multiplicar-se por doze até 2060, com emissões 11,7 vezes maiores que em 2023, caso o setor continue apoiado no carvão. Nesse cenário, o aço representaria cerca de 31% das emissões nacionais de greenhouse gas até 2060, se políticas atuais não se alterarem.
Impacto ambiental e de saúde
Cerca de 80% do aço indonésio é produzido via tecnologia de alto carbono BF-BOF, enquanto apenas 20% vêm de forno elétrico com sucata (EAF). A diferença eleva a intensidade de emissões do setor, já que BF-BOF emite em média cerca de 2 t de CO₂ por tonelada de aço, ante menos de 0,1–0,5 t com EAF, dependendo da matriz elétrica. Como resultado, a intensidade de emissões fica estimada em 1,6 t CO₂ por tonelada de aço.
A AEER associa esse quadro a riscos à saúde pública, com poluentes como PM2,5 e PM10, NO2, SO2 e monóxido de carbono. Em Ciwandan, perto de grandes produtores, houve 6.514 casos de infecção respiratória aguda em 2023 e 5.091 em 2024. Dados de 2025 indicam alta contagem até agosto, com aumento de casos em bairros vizinhos às plantas. Moradores relatam poeira, barulho e odores.
Políticas e entraves
O governo reconhece os riscos. O ministro da Indústria, Agus Gumiwang Kartasasmita, afirmou que o setor deve ajudar a descarbonizar a indústria e atingir zerar as emissões até 2050. Planos incluem o plano de desenvolvimento 2025-29, uma regulação de precificação de carbono de 2025 e um roteiro de descarbonização industrial.
Entretanto, a AEER aponta que tais políticas carecem de metas de emissões setoriais vinculativas, prazos transparentes de transição e mecanismos de aplicação, o que permitiria a expansão de alto carbono com pouca supervisão, mesmo diante de demanda externa por aço de baixo carbono. O Ministério da Indústria respondeu que a abordagem prioriza dados de emissões e reduções de intensidade antes de impor limites setoriais, e que pretende descolar o crescimento da produção da emissão por meio de eficiência, maior uso de sucata e eletricidade de baixo carbono.
Padrões e comércio internacional
O governo lançou o SIH, um padrão industrial verde para promover práticas mais sustentáveis, com limites de emissões em nível de produto para o aço laminado desde 2024. Análises internacionais indicam que o SIH está parcialmente alinhado com normas globais, mas ainda carece de verificação independente obrigatória, lombas completas de emissões da cadeia de suprimentos e rastreabilidade de carbono por produto.
Sem avanços, especialistas alertam que exportadores podem perder acesso a mercados da União Europeia, que aplicará o CBAM a partir de 2026. Em virtude disso, a AEER aponta a importância de alinhamento mais próximo do SIH com padrões internacionais para manter competitividade, além de incentivar políticas de compras públicas ambientalmente responsáveis para fortalecer o mercado doméstico de aço de baixo carbono.
Perspectivas e monitoramento
A AEER recomenda zonas de proteção entre usinas e áreas residenciais, especialmente quando instalações ficam a menos de 300 metros de moradias, bem como sistemas de monitoramento de qualidade do ar em tempo real de acesso público. O objetivo é reduzir riscos à saúde, melhorar a responsabilização e apoiar transição mais rápida para tecnologias menos poluentes.
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