- Evento da Argus Media em São Paulo aponta retração da demanda e risco de indisponibilidade física de fertilizantes para a próxima safra.
- Produtores sinalizam que podem não adubar, mesmo com preços elevados, por efeito da deterioração da relação de troca e custos, o que reduz o interesse de compra.
- A oferta é prejudicada pela restrição global de enxofre e ácido sulfúrico, insumos-chave para fosfatados, com o enxofre vindo de indústria de petróleo e gás e déficit já em 2024 e 2025.
- Há gargalos logísticos e de armazenamento, especialmente para enxofre e ácido sulfúrico, o que pode limitar a produção de fertilizantes de menor concentração.
- O setor avalia ajustes de portfólio e manejo, como fosfato natural reativo e fertilizantes de menor concentração, além de pressões de crédito mais altas e atraso de pagamentos; a área plantada deve manter, mas a produção pode ficar aquém do esperado.
O mercado de fertilizantes enfrenta perspectiva de escassez física para a próxima safra, além da alta de preços. Em um evento da Argus Media, realizado em São Paulo, representantes do setor relataram sinais de retração da demanda, pressão de custos e riscos de oferta. O cenário tem levado produtores a adotar escolhas mais conservadoras.
Segundo dirigentes, a preocupação não é apenas com o preço, mas com a disponibilidade de insumos. Há relatos de produtores que dizem não ter folga para adubar, indicando que a restrição pode passar a influenciar decisões de plantio. A percepção é de que o abastecimento pode ficar aquém da necessidade.
A relação de troca piorou para o agricultor, e o custo do pacote de NPK pode chegar a cerca de 40 sacas por hectare, frente a produtividade média de 67 sacas por hectare. Em anos anteriores, preços elevados permitiam absorver parte desses custos, o que não ocorre neste ciclo.
Pontos de oferta também aparecem como entraves relevantes. A restrição global de enxofre e ácido sulfúrico, insumos cruciais para fertilizantes fosfatados, preocupa pela dependência de cadeias produtivas que enfrentam gargalos. O enxofre, subproduto da indústria de petróleo e gás, passou de superávit para déficit entre 2024 e 2025, com perspectiva de piora em 2026.
Além de fatores geopolíticos, parte da oferta global está concentrada em regiões com conflitos ou rotas logísticas sensíveis, o que aumenta a vulnerabilidade de fornecimento. Em terras brasileiras, a dependência de insumos eleva o custo de produção, com o repasse de preços sendo mais restrito do que em outros setores, segundo especialistas.
A paralisação pontual de plantas no Brasil já é considerada uma possibilidade prática, seja pela indisponibilidade de insumos ou pela inviabilidade econômica de produção de fosfatados de baixa concentração. A migração para produtos com menor teor de fósforo tende a exigir maiores volumes aplicados para alcançar o mesmo efeito.
Gargalos logísticos e infraestrutura também pesam. Portos e estoques apresentam limitações, especialmente para enxofre e ácido sulfúrico, que demandam tanques específicos. Essa combinação pode reduzir a capacidade de produção de fertilizantes de menor concentração, agravando o cenário de oferta.
Do ponto de vista financeiro, o custo de capital de giro subiu expressivamente. Operações que antes consumiam cerca de US$ 8 milhões passaram a exigir até US$ 40 milhões, dificultando o acesso a crédito para as empresas do setor.
Ainda que haja disponibilidade de produto, a demanda permanece retraída. O setor indica que produtores costumam adiar compras, migrar para alternativas ou até reduzir o uso de fósforo em áreas já degradadas. A inadimplência no crédito já alcança níveis significativos, com parte relevante do crédito com atraso superior a 90 dias.
Como resposta, indústria e produtores discutem ajustes no portfólio e nas estratégias de produção. Entre as opções cogitadas estão o uso de fosfato natural reativo, fertilizantes de menor concentração, remineralizadores e adubação mais direcionada. Contudo, restrições de escala e impactos na produtividade limitam essas alternativas.
No campo, já há relatos de redução de adubação em alguns casos, com cortes de até 25% em aplicações de fosfato. Produtores também buscam aproveitar nutrientes existentes no solo e alterar o mix de culturas, como substituição de milho por sorgo em determinadas áreas.
A expectativa é de manutenção ou até expansão da área plantada, embora a produtividade possa ficar aquém do esperado. A área tende a permanecer estável, porém com incertezas quanto ao volume de produção.
Diante do cenário, a indústria avalia ajustes ao longo da cadeia, enquanto produtores reavaliam manejo agrícola. Não há solução única neste momento, e a normalização do mercado ainda depende de diversos fatores intervenientes.
Entre na conversa da comunidade