- Em dezembro de dois mil e vinte e cinco, FIDCs, FIPs e FIIs somavam 21% do patrimônio do setor de fundos, cerca de R$ dois trilhões e trezentos bilhões, com FIDCs em sete por cento, FIPs em dez por cento e FIIs em quatro por cento.
- O peso de ativos estruturados subiu de 1% em dois mil e quatro para 21% em dois mil e vinte e cinco, passando por 5% em dois mil e oito e 10% em dois mil e dez.
- Reguladores reconhecem que o crescimento não foi acompanhado pela ampliação de controles; há demanda por integração entre Bacen, CVM e Autorregulação para monitorar riscos sistêmicos.
- Bacen e CVM anunciaram ampliar a troca de informações, incluindo dados de FIDCs, securitizadoras e intermediários, como resposta à necessidade de monitorar o risco de forma integrada.
- Além do crescimento do crédito privado, cerca de 19% dos ativos dos fundos da indústria são crédito privado não bancário (aproximadamente R$ 1,4 trilhão), enquanto os volumes de captação de fundos reforçam a propensão ao crédito estruturado.
Entre trilhões e estruturas de crédito: o pace do mercado é questionado
Brasil nunca viveu um ciclo de estresse com R$ 3,7 trilhões em crédito privado distribuídos em estruturas complexas de fundos. O tema envolve o crescimento do crédito estruturado e a necessidade de controles mais robustos. O mercado aponta que o avanço ocorreu mais rápido que a capacidade de supervisão.
Duas notícias do Valor Econômico aparecem como faces da mesma questão: ampliação da troca de informações entre Bacen e CVM sobre operações de crédito; e, ao mesmo tempo, forte captação em imóveis, fundos e renda fixa com foco em crédito privado. Juntas, sugerem um experimento regulatório em maturação.
O peso de ativos estruturados na indústria de fundos cresceu expressivamente nos últimos anos. Em dezembro de 2025, FIDCs representavam 7% do patrimônio, FIPs 10% e FIIs 4%, totalizando 21% (cerca de R$ 2,3 trilhões). Em 2010 esse conjunto somava 10%.
A evolução não veio acompanhada de igual melhoria na regulação e na capacidade institucional. Reguladores e autorregulação evoluíram, mas de modo insuficiente ante o aumento da exposição a estruturas complexas. O monitoramento ainda é fragmentado.
Fundos de crédito privado apresentam maior heterogeneidade de instrumentos e governança, diferindo dos fundos tradicionais, mais líquidos. Quando o peso era baixo, o monitoramento era simples; com o crescimento, tornou-se mais desafiador.
Hoje, ativos de crédito privado não bancário representam 19% da carteira da indústria (cerca de R$ 1,4 trilhão). Parte importante desse volume opera fora dos padrões dos títulos públicos e ações, exigindo governança e avaliação de risco mais sofisticadas.
A regulação evoluiu, assim como a autorregulação e os processos dos players. Ainda assim, a percepção é de que o ritmo não acompanhou a escalada de risco. O mercado admite que o conjunto de ativos cresceu exponencialmente, enquanto as estruturas de controle seguiram em ritmo diferente.
Enquanto Bacen e CVM trabalham para ampliar o fluxo de dados — incluindo FIDCs, securitizadoras e intermediários — o apetite por crédito permanece elevado. Investidores migraram para crédito, mesmo diante da complexidade inerente às estruturas.
A conclusão prática é simples: o sistema financeiro não pode depender de controles em silos para tratar riscos sistêmicos. A necessidade é de governança integrada, métricas de liquidez mais rígidas e resposta mais rápida a eventos.
Crédito estruturado não é vilão; é ferramenta essencial para financiar empresas e projetos que não teriam acesso ao crédito tradicional. O desafio é calibrar controles para um mercado em transformação, sem frear a inovação.
José Brazuna, sócio da Iaas!, aponta a necessidade de revisar governança, dados e integração regulatória para acompanhar o tamanho atual do mercado de crédito privado.
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