- Mais de 80% das empresas colocam a IA no centro de suas estratégias, mas 74% não possuem práticas estruturadas de gestão de riscos em IA.
- 66,7% ainda não utilizam técnicas avançadas (modelos próprios de machine learning ou deep learning); 80% não fazem análises recorrentes de maturidade digital; 23,2% não têm métricas formais para avaliar resultados.
- 43,3% investem menos de 1% do orçamento total em IA; 68,3% não contam com núcleo dedicado à coordenação estratégica; 55,8% não privilegiam IA na capacitação de pessoas.
- 58,3% dos executivos já percebem ganhos de produtividade com IA, principalmente na automação e na redução de custos; o salto para novos modelos de receita ainda é raro.
- Setores como financeiro, agro e varejo mostram maior maturidade, com governança integrada entre tecnologia, dados e inovação; o desafio está na heterogeneidade das médias empresas e na necessidade de envolver áreas de negócio e conselhos.
A pesquisa da Fundação Dom Cabral, com a participação de mais de 100 executivos de cerca de 20 setores, mostra que a inteligência artificial já é prioridade para as empresas brasileiras. Mais de 80% colocam a IA no centro de suas estratégias, porém a transformação em valor concreto continua desafiadora.
O estudo aponta gargalos estruturais que freiam o uso mais avançado da tecnologia. Entre as companhias, 74% não possuem práticas estruturadas de gestão de riscos em IA e 66,7% ainda não utilizam técnicas como modelos próprios de machine learning ou deep learning. Além disso, 80% não têm análises recorrentes de maturidade digital e 23,2% não contam com métricas formais para avaliar resultados.
A distribuição de recursos também preocupa. Em 43,3% das empresas, os aportes em IA não chegam a 1% do orçamento total. Outros 68,3% não possuem núcleo ou escritório dedicado à coordenação estratégica da tecnologia, gerando iniciativas dispersas e pouca escala. A lacuna de capacitação é ainda maior: 55,8% não tratam a IA como prioridade em agendas de desenvolvimento de pessoas.
Governança e uso da IA
Apesar das fragilidades, 58,3% dos executivos já percebem ganhos de produtividade com IA, principalmente por meio de ferramentas generativas. Ainda assim, os ganhos costumam se restringir à eficiência operacional, como automação de tarefas e redução de custos. Avanços que criem novas receitas ou vantagens competitivas duradouras permanecem raros.
Segundo o pesquisador Hugo Tadeu, professor da Fundação Dom Cabral, o problema está ligado à governança. As áreas de TI acabam recebendo a responsabilidade pela agenda de IA, mas enfrentam pressão para cortar custos, o que dificulta liderar uma transformação de negócio.
IA como vetor estratégico
A visão de Tadeu reforça que a IA não pode ficar confinada à TI nem ser apenas uma ferramenta técnica. Ela precisa envolver áreas de negócio, diretorias executivas e conselhos para apoiar decisões estratégicas.
Outro desafio reside na compreensão sobre IA. Para 42,7% dos executivos, a falta de conhecimento especializado freia a adoção mais avançada. A IA ainda é frequentemente vista como um conjunto de ferramentas prontas, em vez de um ecossistema de dados, infraestrutura e tomada de decisão.
Infraestrutura e dados
Cerca de 70% das empresas tratam a base tecnológica como prioridade e metade já adota estruturas como data lakes. No entanto, apenas 10% utilizam essa infraestrutura para análises avançadas, o que limita o valor estratégico da IA.
A gestão de riscos também entra na equação. O uso inadequado de ferramentas de IA pode trazer impactos reputacionais e financeiros, exigindo políticas claras, governança de dados e programas de letramento para uso responsável.
Setores com maior avanço
Entre os setores, o financeiro, o agro e o varejo aparecem como os mais maduros, graças a modelos de governança integrados entre tecnologia, dados e inovação, além de métricas de resultado. No financeiro, o ambiente regulatório impõe disciplina na gestão de riscos; no agro, a IA já está consolidada no processo produtivo; no varejo, o uso de dados na jornada do cliente favorece aplicações mais sofisticadas.
Perspectiva para o Brasil
A leitura do estudo indica que o Brasil não está atrasado em todos os aspectos. Em setores como o financeiro, o país está na fronteira tecnológica. O desafio é a heterogeneidade do tecido empresarial, especialmente entre médias empresas, que enfrentam maiores dificuldades para adotar e entender a IA em nível estratégico.
O caminho futuro da IA nas empresas tende a depender menos da adoção e mais da execução, com foco em governança, dados e decisões de negócio bem respaldadas por métricas claras.
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