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Apostas usadas como bode expiatório por marqueteiros eleitorais

Crédito caro, especialmente o rotativo do cartão, explica grande parte do endividamento; as bets são usadas como bode expiatório, não a raiz do problema

Leitura superficial do problema favorece soluções ineficazes e políticas públicas mal calibradas, diz o articulista
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  • Pesquisas apontam distorção entre percepção social e realidade: maioria acredita que as bets são grande problema, mas pouco menos de um terço cita o vício como principal problema e apenas 11,3% já apostaram.
  • O gasto com apostas representa apenas 0,46% do consumo das famílias; o endividamento está mais ligado ao custo do crédito.
  • Entre 25,2 milhões de brasileiros que fizeram apostas em 2025 e mais de 100 milhões expostos ao crédito rotativo de alto custo, há grandes diferenças de escala e impacto econômico.
  • Taxas de juros elevadas explicam parte relevante do endividamento: crédito livre para pessoas físicas em 62% ao ano, cartão de crédito rotativo em 435,9% ao ano, e cheque especial também entre os itens mais caros.
  • Mercado regulado, com mais de 80 empresas autorizadas pela Secretaria de Administração de Jogos e Apostas, arrecadou cerca de R$ 9,95 bilhões em 2025 e registra ações de fiscalização para impedir sites ilegais; reduzir o mercado legal não resolve o problema macroeconômico de crédito caro.

Em meio a disputas eleitorais, cresce a discussão sobre o papel das apostas online como gatilho do endividamento familiar. Dados recentes contestam a ideia de que as bets seriam a principal causa da inadimplência ou do peso financeiro das famílias.

Segundo a CNT, em abril de 2026, 71,9% reconhecem as apostas como problema social, e 38,4% defendem a proibição. Contudo, apenas 11,3% afirmam apostar, enquanto 50,4% não participam desse mercado.

Estudo da LCA Consultoria aponta que o gasto com apostas representa apenas 0,46% do consumo das famílias. O levantamento também mostra que 30% da renda de famílias endividadas é destinada ao serviço da dívida.

Dados do Banco Central ajudam a entender o panorama: em fevereiro de 2026, juros médios do crédito livre para pessoas físicas estavam em 62% ao ano; o rotativo do cartão alcançava 435,9% ao ano. O cheque especial também figura entre as opções mais onerosas.

Em março, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, destacou que a inadimplência está vinculada principalmente ao rotativo do cartão de crédito e a mais de 100 milhões de pessoas pagam juros nessa modalidade. A afirmação contrasta com a narrativa de que as apostas seriam o motor principal do endividamento.

No Brasil, existem 25,2 milhões de pessoas que fizeram apostas em 2025, conforme balanço da Secretaria de Prêmios e Apostas. Em contrapartida, mais de 100 milhões estão expostas a crédito de alto custo. A diferença de escala é significativa para a avaliação do impacto econômico.

A regulação do setor de apostas, sob supervisão da SPA, é apontada como mecanismo de controle. O mercado autorizado tem mais de 80 empresas, gera empregos qualificados e representa arrecadação tributária relevante, com perspectiva de crescimento.

Especialistas lembram que frear o mercado regulamentado não resolve a raiz do problema. Atraí-lo para a informalidade pode aumentar riscos de lavagem de dinheiro e falta de proteção ao consumidor, elevando a chance de atividades criminosas.

Ainda que as apostas gerem custos para parte dos usuários, a pauta macroeconômica — juros altos, crédito de qualidade duvidosa e renda estagnada — permanece como fator determinante do endividamento. A prioridade, segundo analistas, é enfrentar a estrutura do crédito no país.

A discussão pública, portanto, não deve se transformar em culpabilização de um setor específico. O foco precisa ser políticas que reduzam o custo do crédito, incentivem educação financeira e fortaleçam a fiscalização de práticas de crédito e marketing.

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