- Edcarlos Quilelli, 47 anos, trabalha como motorista de ônibus e, nos intervalos, atua como motorista por aplicativo, enfrentando dívidas próximas de R$ 9 mil contra um caixa de R$ 8 mil.
- Ele cogita pedir demissão da carteira assinada, argumentando que o salário não aumenta mesmo com funções mais exigentes.
- Motoristas de aplicativo relatam ganhos que não acompanham a alta de combustíveis, sentindo dificuldades financeiras e cansaço diante de grandes mudanças no mercado de trabalho.
- Pesquisas internacionais apontam fadiga da mudança, com parcela significativa da população buscando mais de um emprego e recorrendo ao empreendedorismo como saída.
- Especialistas defendem criar uma nova categoria para motoristas de transporte por aplicativos (MTA), com proteções mínimas e menos rigidez que a CLT, embora a implementação seja complexa e o crédito seja caro.
Nos últimos meses, Edcarlos Quilelli, 47 anos, relata não ter descanso. Motorista de aplicativo desde 2018, ele voltou a trabalhar com carteira assinada num ônibus em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, e ainda atua como motorista particular nos intervalos. A renda não cobre as dívidas.
Ele carrega dívidas estimadas em 9 mil reais, com caixa mensal de 8 mil. A situação impulsiona a busca por mais horas de trabalho, mesmo em meio ao desgaste. Quilelli é pai de quatro filhos e vê a dificuldade ampliar o ganho mensal como parte da nova realidade laboral.
O caso de Quilelli ilustra transição no mercado de trabalho, marcada por maior multiplicidade de atividades. Cientista político Felipe Nunes aponta que esse trabalhador mais multifacetado pode ter papel decisivo nas eleições deste ano.
Quilelli não se identifica com o modelo tradicional da CLT e cogita pedir demissão. Ele observa que, embora tenha passado de motorista de ônibus a motorista e cobrador, o salário segue estático, e as demandas aumentaram. A percepção é de rigidez maior no emprego atual.
Os motoristas de apps relatam ganhos que nem cobrem despesas ante a alta de combustíveis. Há reconhecimento de tentativas governamentais de melhoria, contudo o impacto na vida prática costuma variar entre trabalhadores e categorias.
Mudanças no mercado de trabalho e fadiga
Especialistas observam fenômeno global de “fadiga da mudança”, com sinais de que muitos profissionais sentem cansaço, enquanto outros prosperam. Estudos de organizações como Gartner, Deloitte, OMS e OIT descrevem cenários contrastantes na relação trabalho, renda e bem-estar.
No Brasil, pesquisa para o livro Brasil no Espelho, de Nunes, ouviu 10 mil pessoas. Metade relata cansaço ou emoções negativas, com fatores como necessidade de múltiplos empregos para sustentar a renda. A maior parte busca autonomia, menos CLT e mais atividades independentes.
O argumento central é que o novo trabalhador não se encaixa inteiramente na CLT nem pode depender integralmente de plataformas. A proposta é criar uma classificação ocupacional específica para motoristas de transporte de aplicativos (MTA), reconhecendo direitos mínimos sem regras engessadas.
Para líderes da categoria, o objetivo é um equilíbrio: manter flexibilidade sem abrir mão de proteções. A ideia envolve acesso a crédito, melhores condições de trabalho e reconhecimento institucional, sem transformar o setor em dependência exclusiva do algoritmo como chefe.
Especialistas destacam que o desafio está em articular políticas públicas com o comportamento de trabalhadores que combinam várias atividades. A comunicação precisa refletir que a escolha por novas formas de trabalho é, em muitos casos, uma estratégia de vida, não mera falta de opção.
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