- A valorização da bolsa brasileira tem sido sustentada pelo fluxo externo, mesmo com guerra, inflação alta, juros elevados e eleições incertas.
- Felipe Guerra, da Legacy Capital, afirma que a alta não reflete melhora da economia doméstica e que a saída de estrangeiros provocaria queda do mercado.
- Com Selic em 14,5%, a renda fixa ainda oferece retornos maiores que o potencial de valorização das ações, reduzindo o apetite de investidores locais.
- O fluxo estrangeiro vem capturando posição diária em ações locais, enquanto o investidor doméstico reduz a exposição; o movimento é visto como ajuste global de portfólio.
- A Legacy privilegia exposição internacional, especialmente nos EUA e em tecnologia/AI, mantendo posição mais contida na bolsa brasileira, e ajusta estratégias de renda fixa e câmbio conforme inflação e commodities.
O mercado acionário brasileiro opera perto de máximas históricas, sustentado pelo fluxo de capital estrangeiro em meio a guerra, inflação alta, juros elevados e eleições ainda incertas. A avaliação é de Felipe Guerra, sócio-fundador da Legacy Capital, gestora com cerca de R$ 15 bilhões sob gestão.
Para Guerra, o desempenho recente dos ativos locais não reflete melhora estrutural da economia, e sim a presença de investidores externos buscando diversificação. Segundo ele, “se o estrangeiro for embora, a bolsa despenca”.
Ao Café com Investidor, Guerra ressaltou que o investidor doméstico está afastado da bolsa por conta de juros reais elevados. Com a Selic em 14,5%, a renda fixa oferece retornos relevantes frente ao potencial de ações.
O espaço que fica para o investidor local vem sendo preenchido por estrangeiros, que compram quase diariamente enquanto o local resgata fundos de ações. Guerra aponta que o movimento é um ajuste global de portfólio, não uma aposta específica no Brasil.
Contexto externo e impacto no portfólio
Guerra afirma que a alta não é um fenômeno isolado; países produtores de commodities, como Chile, Colômbia e México, também se beneficiam do cenário internacional. O Brasil, segundo ele, foi favorecido por fatores externos sem ações próprias que justificassem a valorização.
O conflito no Oriente Médio elevou preços de petróleo e outras commodities, melhorando termos de troca e limitando impactos sobre câmbio e bolsa. “O Brasil passou relativamente ileso na renda variável e na moeda desde o início da guerra”, disse.
Inflação, juros e cenário para 2025
O efeito mais relevante, segundo o gestor, é sobre a inflação e o espaço de atuação da política monetária. A elevação do petróleo levou a revisões de projeção inflacionária, reduzindo o espaço para cortes da Selic. A Legacy já trabalha com uma redução de 250 a 300 pontos-base, ante cenário anterior de afrouxamento mais intenso.
Política e eleições
Além do cenário externo, o calendário político adiciona incerteza. As eleições presidenciais de 2026 ainda não estão totalmente precificadas, conforme Guerra. Apesar de inflação controlada e baixo desemprego, o ambiente político é visto como competitivo.
Estratégia de gestão da Legacy
Diante dessas variáveis, a Legacy estruturou um portfólio com maior exposição internacional. Agestora mantém posições compradas em bolsas globais, com foco nos Estados Unidos, e em empresas ligadas à tecnologia associada à IA, semicondutores, memória e energia.
No Brasil, a exposição é menor e considerada tática, condicionada à continuidade do fluxo estrangeiro. “É muito difícil ficar contra o fluxo”, afirma. A estratégia é acompanhar o movimento enquanto ele persistir.
Na renda fixa local, a preferência fica por posições que possam se beneficiar de queda na inflação implícita, enquanto no câmbio a planilha envolve comprar moedas de países favorecidos por preços de commodities e vendê-las quando o petróleo pesa menos.
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