- A pesquisa Marca Brasil aponta que a percepção positiva do agro brasileiro no exterior não se traduz em preço premium nem em maior valorização dos produtos.
- A avaliação externa atinge a maior pontuação (7,5) em atributos simbólicos, mas não gera admiração adicional nem disposição de pagar mais.
- Mato Grosso, grande produtor/exportador, responde por 17,4% das exportações do agronegócio em 2025, enviando ao exterior US$ 29,38 bilhões em 68,1 milhões de toneladas.
- O estudo mostra que mercados valorizam origem e identidade cultural em itens como café, vinho e cacau, mas commodities continuam dominantes na pauta exportadora.
- Indicações geográficas ganham espaço: de 73 certificações em 2020 para mais de 150 em 2026, refletindo sinal de qualidade e potencial de valor agregado.
O agro brasileiro enfrenta um paradoxo: tem boa imagem no exterior, mas essa percepção não se converte em preço premium nem em maior valorização dos produtos. A conclusão é de uma pesquisa da Marca Brasil, realizada pela OnStrategy e divulgada com exclusividade pela CNN Brasil.
O estudo aponta que o Brasil recebe a maior nota de atributos simbólicos fora do país, mas essa reputação não se traduz em maior admiração nem disposição de pagar mais. Foram ouvidos 192.400 brasileiros e 278.200 estrangeiros entre outubro de 2025 e março de 2026.
Segundo Sueme Mori, diretora de Relações Internacionais da CNA, o país tem produção ampla e qualidade, porém com volumes variáveis nas cadeias globais. “A gente produz de tudo, de altíssima qualidade, mas em volumes muito diferentes”, afirma.
Diferença entre origem e valor de mercado
Mato Grosso, principal produtor e exportador do agro brasileiro, recebe nota interna de 7,3, mas exposição externa de apenas 3,4. A frase resume o desafio: o produto viaja, mas a marca não. Em 2025, o estado respondeu por 17,4% das exportações do agro, totalizando US$ 29,38 bilhões.
As exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 169,1 bilhões em 2025, com 68,1 milhões de toneladas enviadas. O conjunto da pauta incluiu animais vivos, carnes, cereais, soja, fibras, bebidas, frutas e outros itens, ainda que o complexo soja tenha grande peso na receita.
Diferenciação de produtos e marcas
A pesquisa aponta que itens com origem marcada ou identidade cultural — café, vinho e cacau — apresentam desempenho superior na imagem internacional. Em média, a reputação externa é 1,14 ponto mais alta e a percepção de valor cultural chega a 3,9 pontos acima.
Mori indica que o Brasil avança na construção de marcas e na agregação de valor, mas ressalva que o processo ainda não está completo. Em muitos mercados, a origem brasileira já é associada à qualidade de produtos agropecuários, especialmente em países do Oriente Médio.
Indicações geográficas como caminho estratégico
Júlio César Moreira, presidente do INPI, defende o uso de indicações geográficas (IGs) para acrescentar valor. Em mercados como a Europa, consumidores aceitam pagar mais por produtos certificados. As IGs também fortalecem cadeias locais, desde produtores até associações.
O queijo Serra da Canastra é citado como exemplo de sucesso, com certificação de origem que ampliou mercados e reconhecimentos internacionais. O processo de IG envolve órgãos como o Ministério da Agricultura, Sebrae, Emater e INPI, além da organização de produtores.
Desafios e perspectiva
O crescimento das IGs no Brasil duplicou nos últimos cinco anos, chegando a mais de 150 certificações em 2026, com concentração em Sul e Sudeste e no café, que compõe a maior parte dos selos. Em acordos internacionais, o reconhecimento mútuo de IGs facilita a entrada em mercados exigentes.
Moreira afirma que a estratégia de IGs pode ampliar a presença brasileira no mercado europeu, ampliando riqueza e reconhecimento cultural. O caminho envolve articulação entre órgãos públicos, associações e produtores, além de delimitar áreas geográficas e padrões técnicos.
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