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Quem são as mulheres que mantêm a pesca de luxo no Pantanal brasileiro

Mulheres catadoras de iscas no Pantanal sustentam a pesca de luxo, enfrentando água suja, riscos de ataques de animais e renda inferior ao salário mínimo

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  • Mulheres de comunidades ribeirinhas do Pantanal coletam iscas vivas para a pesca esportiva, funcionando como base da economia local e sustentando o turismo de pesca na região.
  • No Pantanal, 5.026 das 12.319 pessoas registradas como pescadores profissionais são mulheres, ~40% do total, segundo o Cadastro Geral de Atividade Pesqueira de 2023.
  • O trabalho é feito de noite, em água suja, com risco de ataques de animais e doenças, e é remunerado com valores baixos, com renda mensal entre 1.5 mil e 2 mil reais para famílias inteiras.
  • Proteção e custos: desde 2011, um PPE (alusão a overa de proteção) é fornecido com verba de multas trabalhistas, mas a vida útil é de até um ano e nem todas as donas das casas recebem novas roupas de proteção.
  • Dura temporada de defeso entre novembro e fevereiro traz atrasos de pagamento do seguro-defeso, deixando pescadores informais sem renda, com governo discutindo pagamentos e regras para regularizar o benefício.

Roseli Oliveira acorda às 3h na Ilha Baguari, no Pantanal de Corumbá (MS), para iniciar a coleta de iscas vivas. Com o farol apagado para não espantar a presa, ela mergulha na água turva e enfrenta até 12 horas de trabalho, cercada por jacarés, novas e arraias.

Não é caso isolado. Em comunidades ribeirinhas do Pantanal, dezenas de mulheres atuam na coleta de iscas vivas para a pesca, usando redes finas e lampiões. A atividade, essencial para a economia local, sustenta turistas e pescadores esportivos que movimentam milhares de reais no bioma.

A prática, que se tornou comum a partir dos anos 1980 com o crescimento do turismo, envolve pesca manual de caranguejos e pequenos peixes como tuviras. O trabalho é realizado, em geral, de forma autônoma, sem contratos formais com compradores.

Dados de 2023 do Registro Geral da Atividade Pesqueira apontam que, entre 12.319 profissionais registrados em MT e MS, 5.026 são mulheres, o que representa cerca de 40% do total. A participação feminina também é visível na liderança de comunidades e na economia local.

Entre as histórias, Zezé, de 61 anos, atua há 34 anos na coleta de iscas, enfrentando água suja que pode provocar infecções. Ela relata doenças ginecológicas frequentes entre as coletoras devido à água usada no trabalho e à falta de proteção adequada.

A proteção começou a melhorar em 2011, quando a Ecoa (Ecologia e Ação) conseguiu uma empresa paranaense que fornecia macacões impermeáveis e botas resistentes. O acordo com o Ministério do Trabalho, por meio de multas trabalhistas, financiou a compra dos equipamentos, hoje distribuídos às coletoras.

O equipamento, porém, tem vida útil curta, em torno de um ano. Algumas trabalhadoras, como Zezé, recorrem a economias próprias para renovar os itens após o desgaste. Os macacões ajudam a reduzir riscos de ferimentos e ataques de animais, além de evitar problemas de higiene.

Cada grupo de coletoras opera em barcos com capacidade para quatro pessoas. Quando a pesca é boa, conversas surgem; quando é ruim, há silêncio para economizar energia. A água de pantanal exige atenção constante a sons e movimentos para evitar animais como onças na área.

Mesmo com o peso econômico da atividade, a indústria de pesca esportiva no Pantanal cresce. Dados regionais indicam aumento de 30% a 40% no turismo de pesca nos últimos dois anos em MT, com milhares de turistas incentivando o setor.

Entre investimentos e dificuldades, há também questões de pagamentos. O seguro-defeso, benefício de períodos de defeso, tem passado por mudanças administrativas entre INSS e MTE, gerando atrasos para milhares de pescadores. Em MT, o atraso persiste e atinge famílias que dependem do recurso para manter o sustento durante a proibição sazonal.

Relatos trazem ainda a distância até Corumbá para sacar o benefício (cerca de sete horas de barco), com custos elevados de combustível que reduzem o valor recebido. Enquanto isso, o período de defeso, que exige a interrupção das atividades, aumenta o endividamento entre as famílias de coletoras.

A comunidade de Porto Esperança, próxima a Corumbá, destaca o papel central das mulheres na coleta de iscas. Embora não atuem diretamente como coletoras, lideranças locais reconhecem que a participação feminina sustenta a maior parte da economia turística da região, com muitas mulheres mantendo a atividade para assegurar o futuro dos filhos.

As histórias de Roseli e Zezé mostram um retrato de resiliência: mães que mantêm as contas em dia com recursos limitados, enfrentando riscos diários para garantir alimento e educação aos filhos. A invisibilidade da profissão contrasta com a importância econômica no Pantanal.

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