- Em abril, a BYD liderou as vendas de veículos no varejo no Brasil, com 14,9 mil modelos elétricos e híbridos, ante 14,8 mil da Volkswagen.
- A empresa entrou na lista suja do trabalho análogo à escravidão após fiscalização que resultou no resgate de 163 trabalhadores chineses em Camaçari, no fim de 2024.
- A operação identificou alojamentos precários, jornadas de até dez horas, trabalho aos domingos, retenção de salários e de passaportes, além de pagamentos parciais em yuans.
- No início de 2026, a BYD buscou liminares para sair da lista, mas teve o registro incluído em abril e, dias depois, retirado novamente após decisão judicial.
- O caso desencadeou demissão do secretário de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, e provocou críticas de auditores-fiscais à atuação do Ministério do Trabalho na gestão de processos envolvendo trabalho escravo.
A BYD superou a Volkswagen e, em abril, tornou-se líder de vendas de veículos no varejo no Brasil, com 14,9 mil modelos elétricos e híbridos entregues aos consumidores. A empresa também entrou na lista suja do trabalho análogo à escravidão, mais de um ano após resgate de 163 trabalhadores chineses em Camaçari, na região metropolitana de Salvador. O registro na lista dura dois anos.
A fiscalização que resultou no resgate começou com uma inspeção em 27 de novembro de 2024. Técnicos do Ministério do Trabalho encontraram condições degradantes nos alojamentos, jornadas extenuantes e retenção de documentos, entre outras irregularidades, envolvendo a BYD e empresas terceirizadas.
Bastidores da fiscalização e desdobramentos em Brasília
A operação de Camaçari envolveu 41 pessoas, incluindo procuradores, auditores fiscais, policiais e intérpretes. Descobriu-se a vigência de alojamentos com péssimas condições, camas sem colchões e cozinhas sujas, além de jornadas de até 10 horas diárias sem registro de ponto.
Além dos alojamentos precários, trabalhadores estavam sob forte controle, com passaportes retidos em um escritório na obra e deslocamentos limitados no município de Camaçari. Muitos eram analfabetos, vinham da China e receberam salários inferiores aos prometidos.
As investigações identificaram que a remuneração era paga parcialmente e, em alguns casos, depositada em contas na China, inacessíveis para os trabalhadores no Brasil. Em relatos, trabalhadores também citaram falta de proteção solar, insolação e falta de equipamentos básicos para o trabalho.
O Ministério do Trabalho abriu processo administrativo contra a BYD, que pode resultar em novos autos de infração. A empresa rescindiu os contratos com os trabalhadores resgatados e pagou verbas indenizatórias, com as passagens de retorno à China custeadas pelo MPT.
A BYD negociava, ainda em Brasília, um possível TAC para sair da lista antes da publicação. Em janeiro, a empresa já havia fechado acordo de 40 milhões de reais com o MPT para encerrar ação civil pública, mas o TAC não foi confirmado. A lista foi divulgada em abril de 2026 e, após liminar, a BYD foi retirada três dias depois.
Entretanto, o episódio provocou repercussões políticas. O titular da área da lista, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi demitido, o que gerou críticas de auditores-fiscais e acendeu o debate sobre interferência política no combate ao trabalho escravo. O Ministério do Trabalho não se posicionou sobre o caso neste momento.
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