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Últimos mercadinhos de bairro resistem à erosão do tempo

Mercadinhos de bairro resistem à erosão do tempo com fiado, proximidade e gestão simples como alicerces de sobrevivência

No caderno, Doralice anota as compras dos clientes que consomem fiado
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  • Minimercado familiar no Trecho 3 do Sol Nascente, aberto há três anos, gerido por Maria Doralice, que trabalha com fiado e atende a compras básicas diárias sem competir com grandes redes.
  • O estabelecimento foca na proximidade com a comunidade e no atendimento, mantendo relação de confiança com clientes, com débito em caderno e limite de compras até R$ 200.
  • Dados do Sebrae apontam que, no primeiro semestre de 2025, foram abertos mais de vinte e nove mil pequenos negócios do ramo no Brasil, destacando o papel dos minimercados na economia local.
  • Os empreendedores costumam comprar de atacadistas por etapas, com reposição quinzenal, e dependem de fornecedores próximos; o pão de leite é adquirido de produtores locais em sistema semelhante a pedido.
  • Desafios comuns incluem pouca profissionalização, estoque pouco definido (30% não sabem o tamanho do estoque), falta de controle de fluxo de caixa (75% não conhecem o ticket médio) e dificuldades de gestão financeira.

No Trecho 3 do Sol Nascente, em Brasília, o minimercado de Maria Doralice funciona como ponte entre a vida cotidiana da vizinhança e uma lógica de sobrevivência econômica. O balcão denuncia o tempo que passou, mas o negócio segue firme pela proximidade e pela confiança com os clientes.

A comerciante, 46 anos, abre às 7h, gerencia o fiado no caderno e organiza produtos de necessidades básicas. O espaço, inaugurado há três anos após a mudança de Águas Lindas de Goiás para a região, é uma referência local para pagamento em dinheiro, cartão ou fiado. O leite está sempre em evidência.

Com o negócio, Doralice não busca competir com grandes redes, e sim atender a demanda imediata dos moradores. O atendimento próximo, a possibilidade de parcelar compras e a relação de confiança ajudam a manter clientes fiéis, mesmo diante da expansão atacadista.

Na prática, o minimercado funciona como ponto de apoio da comunidade: abastece itens de primeira necessidade, como café, arroz e óleo, mesclando com salgadinhos e refrigerantes. A proximidade reduz tempo de deslocamento para compras rápidas, um aspecto crucial para a clientela local.

Entretanto, o cenário não é simples. O fornecedor não é fixo, as prateleiras são ajustadas conforme o espaço, e o controle de estoque é feito a olho nu. Em 2025, dados do Sebrae indicam que mais de 29 mil pequenos negócios do ramo foram abertos no país no primeiro semestre, reforçando a importância desses estabelecimentos.

Além de manter o estoque limitado, Doralice utiliza um caderno para registrar dívidas e pagamentos, com regras claras: compras limitadas a R$ 200 e restrições de itens, como bebida alcoólica. O objetivo é manter a relação com clientes sem comprometer a solvência do negócio.

Entre clientes fiéis, Maria Silva do Nascimento, 36, destaca a agilidade no atendimento e a possibilidade de pagar no quinto dia útil. Ela compra itens para a casa e para as crianças, elogiando a disponibilidade da comerciante e a relação de confiança estabelecida.

Desafios e estratégias

Segundo especialistas, o modelo de negócio de minimercados depende da proximidade com o cliente. O economista Bruno Vinícius ressalta que grandes atacarejos não substituem o vínculo local. A organização simples do fluxo de caixa, o controle básico de compras e a precificação adequada ajudam na sustentabilidade.

A prática de fiado persiste como elemento central na relação entre mercadinhos e moradores, mantendo 38% das vendas no formato informal de crédito. A realidade local envolve desafios de estoque, com frequência, e a necessidade de reabastecimento quinzenal, conforme a estrutura de cada estabelecimento.

A operação de Alcine Nazaré e Tialen Silva, donos do Brasilar, na Estrutural, reforça o panorama: 90% das mercadorias chegam de fornecedores, com compras quinzenais. A gestão de estoques é enxuta, com foco na reposição para evitar prejuízos.

Para o Sebrae, a formalização via MEI oferece organização, não apenas registro. Separar finanças pessoais das do negócio, registrar entradas e saídas e estabelecer regras mínimas para vendas fiadas são passos recomendados, especialmente para quem atua com baixa margem e alta rotatividade.

A reportagem permanece na linha de frente do tema, explorando como a economia de pequena escala sustenta esses balcões e como a gestão simples pode reduzir perdas. O próximo capítulo da série aborda a dimensão econômica que sustenta o modelo dos minimercados.

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