- O Global Fashion Summit, em Copenhagen, sinalizou que a sustentabilidade está saindo do discurso e passando a influenciar a competitividade e o desempenho financeiro das empresas de moda.
- Hoje, menos de 1% dos tecidos usados são reciclados no modelo fiber to fiber, apontando o desafio de viabilidade econômica para a circularidade em escala.
- A tendência é integrar impacto ambiental à lógica financeira e operacional, com o CFO ganhando protagonismo e métricas como o EP&L já sendo adotadas por grupos como a Kering.
- O novo luxo passa a ser longevidade, rastreabilidade e qualidade, com marcas de luxo como Mulberry investindo em buy-back, revenda de itens pre-loved e couro regenerativo.
- A escala da transformação depende de liderança, legislação e cadeia produtiva, com regulamentações de responsabilidade ampliada (EPR) ganhando força na Europa, Califórnia e outros mercados, e investimentos bilionários previstos para coleta e reciclagem têxtil.
A indústria da moda está saindo de um eixo mayoritariamente reputacional para uma discussão com impacto direto nos resultados. Em Copenhagen, durante o Global Fashion Summit, líderes deram sinais de que sustentabilidade passa a influenciar a competitividade, não apenas a imagem. O tema deste ano, Building Resilience Futures, foca na capacidade do setor de enfrentar regulação, escassez de recursos e mudanças no comportamento do consumidor.
Ao fim dos painéis, ficou claro que o desafio é promover circularidade em escala viável. Embora haja avanços, a cadeia produtiva ainda enfrenta margens apertadas, infraestrutura insuficiente e incentivos públicos tímidos. Dados de referência apontam que menos de 1% dos tecidos são reciclados pelo modelo fiber to fiber, transformando-se em novas peças.
A percepção de que consumo sustenta o negócio ganhou peso entre executivos. A moda começa a alinhar impacto ambiental à lógica financeira, com o CFO ganhando protagonismo na definição de capital, cadeia de suprimentos, governança e métricas de desempenho. O movimento envolve métricas como o EP&L, adotadas por grupos como a Kering.
Sustentabilidade no core business
Um ponto central é retirar a sustentabilidade do papel de relatório separado para integrá-la ao núcleo estratégico. Em Paris e além, executivos discutem o futuro operacional da indústria, buscando maior participação de conselhos e altas lideranças no debate.
Empresas que relacionam metas ambientais a resultados econômicos tendem a ganhar escala. A Europa, Califórnia e Quênia já implementam ou discutem modelos de responsabilidade pós-consumo, com logística reversa e coleta de resíduos no centro da operação.
Novo luxo: longevidade e qualidade
O debate aponta que luxo passa a estar ligado à durabilidade, rastreabilidade e ciclo de vida do produto. Marcas de alto padrão, como Mulberry, já exploram modelos de circularidade — compra de itens usados, reparos e couro regenerativo — com crescimento de vendas em mercados-chave.
Essa mudança sugere vantagem competitiva para produtos com maior valor percebido e maior conexão com consumidores que buscam consumo responsável sem abrir mão da qualidade.
Regulação e indústria em transformação
A cooperação entre liderança, legislação e cadeia produtiva é vista como indispensável para ampliar a escala da transformação. A evolução regulatória prevê que fabricantes e varejistas compartilhem responsabilidades pelo ciclo pós-consumo, incluindo coleta e reciclagem.
A Europa projeta investimentos significativos entre €8 bilhões e €10 bilhões para viabilizar a coleta e reciclagem têxtil até 2028. Iniciativas de reciclagem química, fibras bio-based e sistemas de reaproveitamento já operam em escala industrial em empresas como Reju, Hyosung TNC e Looper Textile.
Perspectivas de mercado e próximos passos
A experiência de ambientes com infraestrutura adequada, como redes de second hand, demonstra que o ecossistema precisa de apoio operacional sólido para sustentar a demanda por produtos circulares. Movimentos com benefícios sociais e logísticos bem estruturados ajudam a ampliar o impacto.
Nenhuma iniciativa isolada, por si só, redefine o setor. A transformação exige liderança corporativa, vocação regulatória, inovação industrial e compromissos comerciais consistentes com a cadeia produtiva. A continuidade depende da criação de demanda e de rentabilidade.
Anna Chaia atua como board member em empresas como Olera.io e Madeira&Madeira, além de assessorá-las na Endeavor.
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