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Preço do cacau cai, mas consumidor não sente no bolso

Queda do cacau de US$ 12 mil para US$ 4 mil não reduz o preço final; indústria recua margens e busca estratégias para não repassar totalmente a oscilação

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  • O cacau atingiu US$ 12 mil a tonelada em abril de 2024 e caiu para abaixo de US$ 4 mil no início de 2026.
  • Mesmo com a queda da matéria-prima, o preço do chocolate nas gôndolas não caiu na mesma proporção; na Páscoa de 2026, os preços estavam 24,9% maiores que no ano anterior, segundo IPCA-15.
  • A produção brasileira de chocolates subiu de 806 mil toneladas em 2024 para 814 mil em 2025, alta de quase 1%, com fabrico ocorrendo cerca de 10 meses antes.
  • A indústria reduziu margens e adotou estratégias para não repassar totalmente o aumento da matéria-prima, inclusive criando receitas novas e usando outros ingredientes.
  • As perspectivas são de continuidade da volatilidade: especialistas divergem entre estabilização em patamar próximo a US$ 3 mil por tonelada e demora para reverter quedas nas prateleiras.

O preço do cacau voltou a cair após atingir patamares recordes no ano passado, mas o impacto direto no preço do chocolate nas gôndolas ainda não foi sentido pelo consumidor. Em abril de 2024, o cacau chegou a US$ 12 mil a tonelada, e no início de 2026 recuou para cerca de US$ 4 mil. Mesmo com a queda, os chocolates permaneceram relativamente mais caros para o público.

Indústria e produtores apontam que a relação entre preço de matéria-prima e preço de venda é complexa. A produção de chocolate no Brasil cresceu de 806 mil toneladas em 2024 para 814 mil em 2025, alta de quase 1%, segundo a Abicab. O atraso entre variação da cacauína e o repasse ao consumidor explica parte do comportamento observado.

O ciclo de reajustes começou muito antes de a matéria-prima recuar. A Abicab informa que a indústria trabalha com grande antecedência, o que retardou a transmissão da oscilação de preço ao mercado de consumo. Além disso, as fabricantes reduziram margens e adotaram estratégias para reduzir a dependência da matéria-prima.

Adequações de produção e reformulações

Em vários elos da cadeia, houve adaptações diante da alta histórica do cacau. Empresas moageiras registraram queda de 14,6% na compra de cacau em 2025, em relação a 2024, segundo a AIPC. Alguns grandes nomes da indústria passaram a usar mais matérias-primas alternativas e revisaram formulações para evitar repassar integralmente o aumento aos preços.

Indústrias de chocolate artesanais e de médio porte também ajustaram seus produtos. Em São Paulo, uma confeitaria trocou parte do chocolate caro por doces de leite e frutas para manter o cardápio estável, elevando preços de alguns itens apenas parcialmente para não perder clientes. Chocolatarias de menor escala relataram redução de volumes e busca por insumos com menor volatilidade.

Perspectivas e pontos de atenção

Especialistas ressaltam que o cenário continua incerto. A volatilidade do cacau persiste, com expectativas de menor intensidade de altas futuras, porém sem garantias de estabilização rápida. A Lei 15.404/2026, que define percentuais mínimos de cacau e rotulagem, não deve provocar mudanças drásticas nas fórmulas, segundo analistas, mantendo o consumo estável apesar de ajustes no mix.

Para o setor, a leitura é de que o pior momento pode ter ficado para trás, mas o caminho para normalização envolve equilíbrio entre custo de insumos e demanda. Observadores citam que o preço de referência não deverá retornar aos picos de 2024, estimando patamares mais baixos, porém ainda variáveis.

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